Está acontecendo uma mudança radical na relação entre as pessoas, na relação com o mundo. Alguns já entenderam isso; outros, entendendo ou não, estão sendo obrigados a assimilar as mudanças.
Há 300 anos um filósofo anunciou: “penso, logo existo”. E isso bastava. No século XVII, pensar era sinônimo de raciocinar.
No século XXI, pensar é uma atividade estimulada por múltiplas inteligências e dimensões humanas, não só o raciocínio. Hoje a frase é outra: “existo, e por isso penso, sinto, experimento e ainda imagino um infinito de possibilidades.” O “pensar” adotado no século XVII vingou até muito pouco tempo. Uma relação com o mundo enraizada exclusivamente na estrutura do pensamento lógico. Um jeito de lidar com a vida que parte do princípio de que é possível compreender cada aspecto da realidade separadamente, e lidar com ele de forma satisfatória. Esta postura deu origem a uma arrumação do conhecimento em disciplinas, as mesmas que se estuda na escola. E assim surgiu a separação das diferentes áreas de atuação, as diferentes profissões, que se tornaram responsáveis pela maneira como nos relacionamos com a gente mesmo, com o trabalho, filho, marido, política, esporte, e tudo mais. As disciplinas resultam de uma visão de mundo exclusivamente lógica e racional, que organiza a vida em partes para poder lidar com cada uma delas separadamente. Isso é o que hoje chamamos de fragmentação da realidade.
Todo mundo já passou pela experiência de lidar com um especialista, aquela criatura que sabe tudo sobre uma coisa só. Vá ao ortopedista, que receita um remédio para o joelho, que provoca uma gastrite, e aí você consulta um gastro, que prescreve uma medicação que dá lhe alergia. E nenhum deles consegue resolver seu problema na totalidade, nem deixar de causar outro com o qual também não sabe lidar.
É também o que ocorre a uma nação que para gerar desenvolvimento econômico promove a destruição da natureza, compromete a evolução da vida (a nossa inclusive) e nos coloca diante do atual desafio de criar um modelo de vida sustentável. Não se trata de defeito ou falta de competência. É o resultado da tal fragmentação.
Não há nenhum problema em fazer isso, contanto que não se esqueçam que depois de separar, é preciso recuperar a natural totalidade, pois a vida não acontece “em separado”. E como é que se junta tudo isso de novo? É aí que entra a importância do que se entende por “pensar” e “existir”. Se no século XVII nossa existência estava vinculada a uma relação exclusivamente racional com a vida, hoje ela tem um significado múltiplo. Trazemos em nós diferentes inteligências e múltiplas dimensões humanas, não só a racional. Todas elas produzem conhecimento e lidam com a riqueza de experiências que a vida oferece. A relação com a vida se ampliou. E como ficam as disciplinas, organizadas em diferentes áreas de atuação completamente separadas? Dessa forma, não ficam. Não há mais espaço para este tipo de visão de mundo. Por uma razão muito simples: ela não dá conta do que estamos vivendo.
No século XVII servia. Hoje, não serve mais. Temos o desejo de ultrapassar um modelo que não é de todo ruim, mas não dá conta do que temos para fazer. Desta necessidade de reintegrar, reaproximar o que foi artificialmente separado na nossa relação com o mundo, surgiram diferentes esforços. Um primeiro esforço foi a multidisciplinaridade. Como o nome já diz, são as disciplinas que se aproximam em torno de um mesmo objetivo. Os diferentes especialistas que se reúnem para oferecer, em um mesmo projeto, as diferentes contribuições das disciplinas que representam. Não são as pessoas que contribuem, são suas áreas de especialidade. Um tipo de contribuição produzido por um fragmento humano, somente pela dimensão racional que gerou o modelo das disciplinas, de forma isolada e separada.
Todos conhecem o que é uma equipe multidisciplinar: se tenho que construir uma escola, chamo o arquiteto, o engenheiro, a pedagoga, os professores, gestores, e cada um oferece sua contribuição de forma específica, a partir da sua área de conhecimento e atuação. Outro esforço para reaproximar o que o tal modelo cartesiano separou, é a interdisciplinaridade. É a tentativa de integrar métodos e conceitos de uma disciplina para outra. Veja bem, integrar métodos e conceitos produzidos pela dimensão racional.
É um esforço válido e relevante, porém ainda subordinado a uma noção de conhecimento que só contempla a lógica racional..
E aí surge a transdisciplinaridade, um esforço de reaproximação com a vida, sugerido nas últimas décadas do século XX. “Trans” significa ir além. Transdisciplinaridade significa ir além das disciplinas. Ultrapassar um modelo racional que organizou não só as disciplinas, mas também o jeito como lidamos com nosso dia-a-dia. Este modelo “trans” abre espaço para nossas múltiplas inteligências, para as diferentes dimensões humanas, do orgânico ao espiritual, passando pelo racional, emocional, social, cultural, planetário. Tudo o que em nós é também vivo e inteligente. Alargando a noção de inteligência, mudamos também o jeito de produzir conhecimento. Amplia-se a forma como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos. Amplia-se a nossa capacidade de manter uma atitude aberta, de respeito mútuo, uma postura de reconhecimento em que não há lugar para espaços culturais privilegiados, onde seja permitido julgar e hierarquizar como mais correto ou mais verdadeiro qualquer sistema de relação com a realidade. A relação não se dá entre disciplinas, e sim entre pessoas, com tudo o que elas sabem, sentem, pensam e fazem. Não é só plugar em um pedacinho delas.
Trata-se de se relacionar com as pessoas na sua integridade inteligente que produz conhecimento. Uma ação transdisciplinar é na sua essência transcultural, contempla diferentes modos de viver e estar no mundo. Mais ainda, não se esgota em argumentos produzidos somente pela dimensão racional. Inclui emoções, sentimentos, dúvidas, imaginação, intuição, e também a experiência concreta. Numa tentativa de descrever a riqueza deste jeito de ser, podemos dizer que é uma experiência onde somos ao mesmo tempo cientistas, filósofos, artistas e místicos. Praticar a transdisciplinaridade é ser capaz de, ao mesmo tempo, explicar o mundo com a lógica de um cientista, questiona-lo com as dúvidas de um filósofo, percebe-lo com a sensibilidade intuitiva de um artista, e experimentar cada momento da vida com a profundidade de quem vive intensamente um magnífico ritual de uma grande tradição.
Arte, ciência, filosofia e tradições – este é um circuito transdisciplinar percorrido na construção da nossa trajetória no mundo. Não é só uma multiplicidade de experiências. Trata-se de acessar a multiplicidade de seres que somos, pensando, sentindo, trabalhando, lidando com a vida. É a unidade na diversidade - na prática. Descartes que me perdoe, mas esta riqueza de dimensões humanas é mais viva e real do que só raciocinar. Este jeito transdisciplinar de viver, que acolhe em pé de igualdade nossas diferentes inteligências, do orgânico ao espiritual, oferece suporte para os desafios atuais.
É a visão sistêmica do próprio conhecimento, necessária para se inventar um modo de vida um pouco melhor: mais feliz, mais harmônico, mais competente, e mais viável no planeta e no nosso dia-a-dia. Uma forma de produzir conhecimento que agrega à dimensão lógica uma boa dose de valores universais como amor, paz e não-violência. Um saber comprometido com o bem-comum, com o respeito pela diversidade inerente à natureza e à humanidade. Esta nova produção de conhecimento gera profundos impactos na realidade. O modelo adotado para o conhecimento determina um modo de vida, e vice-versa. É melhor acreditarmos logo nisso, enquanto ainda há tempo, e modificarmos rapidamente a forma como educamos a nós, aos nossos filhos e aos que nos rodeiam. Não há como transformar o mundo sem transformar a maneira como nos conhecemos, evoluímos e nos inserimos no mundo.
Regina Migliori é educadora, advogada, escritora, pioneira no Brasil em projetos de Educação e Gestão centrados em Valores, Ética e Sustentabilidade. Como Diretora Presidente do Instituto Migliori, tem realizado projetos junto a governos, empresas, e instituições de educação. Coordenou o MBA em Gestão com foco em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas. Estão entre seus clientes: Governo do Estado de Minas Gerais, UNESCO; Polícia Militar do Estado de São Paulo; Banco Real, Grupo Votorantim, Natura, entre outros; é autora de livros, CD-Rom, e programas de e-learning.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Maquiagem verde: anúncios da Petrobrás são suspensos pelo Conar
Fonte: Greenpeace Brasil
Link: http://www.greenpeace.org.br
Tiraram a maquiagem verde da Petrobrás - pelo menos parte dela. O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) decidiu nesta quinta-feira suspender dois anúncios da empresa petrolífera por eles divulgarem uma idéia falsa de que a estatal tem contribuído para a qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável do país. O Conar julgou procedente a ação movida por entidades governamentais e não-governamentais como o Greenpeace, SOS Mata Atlântica, Movimento Nossa São Paulo, Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), secretarias estaduais de meio ambiente de São Paulo e Minas Gerais, e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), entre outras.
O julgamento do Conar aconteceu em sessão fechada, da qual participaram o secretário adjunto da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SP), Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo; o secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente (SP), Eduardo Jorge; o médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Paulo Saldiva; o representante do Movimento Nossa São Paulo, Oded Grajew; e o diretor de campanhas do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado.
A decisão, inédita, abre precedente para uma mudança no comportamento do mercado publicitário.
"A decisão do Conar rejeita a tentativa da Petrobrás de fazer maquiagem verde e valoriza a verdadeira comunicação dos valores sócio-ambientais para o público e consumidores brasileiros. Esperamos que a decisão do Conar sirva de precedente para toda e qualquer empresa que, em vez de praticar a ação sócio-ambientalmente correta, fique apenas no discurso", afirma Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil.
"O resultado do julgamento é um marco na história do Conar, que optou por não compactuar com a morte de 3 mil pessoas por ano só na capital paulista", comemorou Oded Grajew.
Em sua defesa, os representantes da agência DPZ e da própria Petrobras argumentaram que a resolução do Conama não determina a diminuição da quantidade de enxofre no diesel comercializado no país, afirmaram que a empresa atua de forma "lícita e regulamentada" e que o "diesel não é o único responsável pela poluição veicular". Sérgio Fontes, da área de abastecimento da Petrobrás, chegou a dizer que a qualidade do ar em São Paulo "é aceitável e que as mortes são de outra natureza".
A declaração foi contestada pelo médico Paulo Saldiva: "Para nós, médicos, a qualidade do ar não é aceitável. Nosso estudo segue a metodologia recomendada pela Organização Mundial de Saúde, que é taxativa ao declarar a morte de 2 milhões de pessoas em todo o mundo por causa da poluição atmosférica".
Com a decisão do Conar, ficam suspensas as campanhas "Sonhar pode valer muito" e "Petrobrás - Estar no meio ambiente sem ser notada", que incluem mídia impressa e eletrônica.
De acordo com a ação apresentada pelas entidades, a Petrobras "afirma recorrentemente em suas campanhas e anúncios publicitários seu compromisso com a qualidade ambiental, com o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social. Entretanto, essa postura que é transmitida por meio da publicidade não condiz com os esforços para uma atuação social e ambientalmente correta".
O óleo diesel produzido pela estatal é um dos piores do mundo e contribui para piorar a qualidade de vida dos brasileiros.
A resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determina que, a partir de 1º de janeiro de 2009, o diesel comercializado no Brasil contenha, no máximo, 50 partes por milhão de enxofre (ppm S). A proporção hoje é de 500 ppm S nas regiões metropolitanas e de 2000 ppm S no interior. A substância, altamente cancerígena, é responsável pela morte de 3 mil pessoas por ano somente na capital paulista.
Link: http://www.greenpeace.org.br
Tiraram a maquiagem verde da Petrobrás - pelo menos parte dela. O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) decidiu nesta quinta-feira suspender dois anúncios da empresa petrolífera por eles divulgarem uma idéia falsa de que a estatal tem contribuído para a qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável do país. O Conar julgou procedente a ação movida por entidades governamentais e não-governamentais como o Greenpeace, SOS Mata Atlântica, Movimento Nossa São Paulo, Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), secretarias estaduais de meio ambiente de São Paulo e Minas Gerais, e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), entre outras.
O julgamento do Conar aconteceu em sessão fechada, da qual participaram o secretário adjunto da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SP), Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo; o secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente (SP), Eduardo Jorge; o médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Paulo Saldiva; o representante do Movimento Nossa São Paulo, Oded Grajew; e o diretor de campanhas do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado.
A decisão, inédita, abre precedente para uma mudança no comportamento do mercado publicitário.
"A decisão do Conar rejeita a tentativa da Petrobrás de fazer maquiagem verde e valoriza a verdadeira comunicação dos valores sócio-ambientais para o público e consumidores brasileiros. Esperamos que a decisão do Conar sirva de precedente para toda e qualquer empresa que, em vez de praticar a ação sócio-ambientalmente correta, fique apenas no discurso", afirma Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil.
"O resultado do julgamento é um marco na história do Conar, que optou por não compactuar com a morte de 3 mil pessoas por ano só na capital paulista", comemorou Oded Grajew.
Em sua defesa, os representantes da agência DPZ e da própria Petrobras argumentaram que a resolução do Conama não determina a diminuição da quantidade de enxofre no diesel comercializado no país, afirmaram que a empresa atua de forma "lícita e regulamentada" e que o "diesel não é o único responsável pela poluição veicular". Sérgio Fontes, da área de abastecimento da Petrobrás, chegou a dizer que a qualidade do ar em São Paulo "é aceitável e que as mortes são de outra natureza".
A declaração foi contestada pelo médico Paulo Saldiva: "Para nós, médicos, a qualidade do ar não é aceitável. Nosso estudo segue a metodologia recomendada pela Organização Mundial de Saúde, que é taxativa ao declarar a morte de 2 milhões de pessoas em todo o mundo por causa da poluição atmosférica".
Com a decisão do Conar, ficam suspensas as campanhas "Sonhar pode valer muito" e "Petrobrás - Estar no meio ambiente sem ser notada", que incluem mídia impressa e eletrônica.
De acordo com a ação apresentada pelas entidades, a Petrobras "afirma recorrentemente em suas campanhas e anúncios publicitários seu compromisso com a qualidade ambiental, com o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social. Entretanto, essa postura que é transmitida por meio da publicidade não condiz com os esforços para uma atuação social e ambientalmente correta".
O óleo diesel produzido pela estatal é um dos piores do mundo e contribui para piorar a qualidade de vida dos brasileiros.
A resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determina que, a partir de 1º de janeiro de 2009, o diesel comercializado no Brasil contenha, no máximo, 50 partes por milhão de enxofre (ppm S). A proporção hoje é de 500 ppm S nas regiões metropolitanas e de 2000 ppm S no interior. A substância, altamente cancerígena, é responsável pela morte de 3 mil pessoas por ano somente na capital paulista.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Alimentação: ONU sob fogo cruzado
Por Thalif Deen, da IPS
A Organização das Nações Unidas decidiu sair em defesa da FAO, sua agência especializada em alimentação e agricultura, sob ataque de líderes mundiais por sua suposta incapacidade de aliviar a atual crise alimentar mundial, enquanto a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura prepara uma cúpula para o próximo mês, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, saiu pessoalmente em defesa dessa instituição. O ataque mais duro coube ao presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que na semana passada descreveu a FAO como “barril de dinheiro sem fundo”, a maioria das despesas – disse – “é com gastos para seu próprio funcionamento, sem operações efetivas no terreno”. Aos jornalistas, Ban afirmou na segunda-feira: “Diante da gravidade e seriedade da situação, posso compreender e compartilhar a frustração de muitos líderes africanos, incluindo o presidente Wade, do Senegal. Mas, quero destacar que, desde sua fundação em 1945, a FAO conduziu os esforços da comunidade internacional para promover a produção e a produtividade (de alimentos) para levar a assistência humanitária necessária a muitos povos afetados pela escassez de comida”, acrescentou. Wade disse que a FAO, dirigida por seu compatriota Jacques Diouf, deveria fundir-se com outra agência da ONU, também com sede em Roma, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). Existe hoje certa superposição de funções entre as duas organizações. Wade considerou que, formada uma nova, sua sede deveria ser na África, não em uma capital do ocidente. O presidente senegalês também criticou agências e organizações não-governamentais de caráter humanitário que “usam dinheiro em todo tipo de gastos – com administração, viagens e hotéis de luxo para autodenominados especialistas – e não em ações no terreno”. A crise é atribuída a vários fatores, incluindo falhas em organizações internacionais com a FAO e outras agência das Nações Unidas que não previram a gravidade do desastre. Parte das culpas é lançada sobre o Banco Mundial, que reduziu seus fundos destinados a pesquisa agrícola nos últimos anos. “O Banco Mundial e, francamente, os próprios governos, investiram menos em agricultura”, disse seu presidente, Robert Zoellick. “Temos um enfoque baseado nos países, segundo o qual as nações são nossos clientes e decidem onde concentrar-se. Investimos mais em luta contra a Aids e a malária e em outros projetos, enquanto houve um claro desinvestimento em agricultura”, admitiu na semana passada, em Berna. “Não creio que seja útil apontar este ou aquele responsável. A questão-chave é, reconhecida a necessidade, com iremos atendê-la”, destacou Zoellick. A Primeira Conferência Mundial sobre Alimentação, convocada pela FAO em 1974, proclamou que “todo homem, mulher e criança tem o direito inalienável de estar livre da fome e da desnutrição para desenvolver suas faculdades físicas e mentais”. Entre as metas estabelecidas pela conferência figuravam erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar e reduzir a desnutrição “em uma década”. Porém, esses objetivos nunca foram atingidos. Em novembro de 1995, a FAO abrigou outra Cúpula Mundial sobre a Alimentação, que aprovou a Declaração de Roma sobre Segurança Alimentar Mundial e um plano de ação para acabar ou minimizar com a fome. A atual crise precipitou a convocação da terceira cúpula, também em Roma, entre 3 e 5 de junho. Prevê-se que chefes de Estado e de governo acordem nessa oportunidade outro plano contra a fome. Depois de quase 34 anos da primeira cúpula da FAO e de dezenas de resoluções e informes da ONU a respeito, o mundo em desenvolvimento enfrenta nova escassez mundial de alimentos e um inédito encarecimento destes produtos. O preço de uma tonelada de arroz, principal insumo alimentar de boa parte da Ásia, aumentou de US$ 460 em março para atuais U$ 950. Diouf advertia em outubro de 2006 que “as promessas não são substitutas da comida”. Hoje, vivem no mundo em desenvolvimento mais desnutridos do que em 1996, quando os líderes do mundo acordaram reduzir esse flagelo, recordou Diouf. A cifra aumenta quatro milhões anuais e agora são 820 milhões anuais. O Banco Mundial calculou que cerca de cem milhões de pessoas caíram na pobreza devido ao atual ciclo de aumento de preços. Ban identificou na semana passada em Berna, na presença de 26 chefes de agências da ONU, várias causas para a atual crise alimentar: encarecimento da energia, falta de investimentos agrícolas, crescente demanda, subsídios e problemas meteorológicos.
(Envolverde/IPS)
A Organização das Nações Unidas decidiu sair em defesa da FAO, sua agência especializada em alimentação e agricultura, sob ataque de líderes mundiais por sua suposta incapacidade de aliviar a atual crise alimentar mundial, enquanto a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura prepara uma cúpula para o próximo mês, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, saiu pessoalmente em defesa dessa instituição. O ataque mais duro coube ao presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que na semana passada descreveu a FAO como “barril de dinheiro sem fundo”, a maioria das despesas – disse – “é com gastos para seu próprio funcionamento, sem operações efetivas no terreno”. Aos jornalistas, Ban afirmou na segunda-feira: “Diante da gravidade e seriedade da situação, posso compreender e compartilhar a frustração de muitos líderes africanos, incluindo o presidente Wade, do Senegal. Mas, quero destacar que, desde sua fundação em 1945, a FAO conduziu os esforços da comunidade internacional para promover a produção e a produtividade (de alimentos) para levar a assistência humanitária necessária a muitos povos afetados pela escassez de comida”, acrescentou. Wade disse que a FAO, dirigida por seu compatriota Jacques Diouf, deveria fundir-se com outra agência da ONU, também com sede em Roma, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). Existe hoje certa superposição de funções entre as duas organizações. Wade considerou que, formada uma nova, sua sede deveria ser na África, não em uma capital do ocidente. O presidente senegalês também criticou agências e organizações não-governamentais de caráter humanitário que “usam dinheiro em todo tipo de gastos – com administração, viagens e hotéis de luxo para autodenominados especialistas – e não em ações no terreno”. A crise é atribuída a vários fatores, incluindo falhas em organizações internacionais com a FAO e outras agência das Nações Unidas que não previram a gravidade do desastre. Parte das culpas é lançada sobre o Banco Mundial, que reduziu seus fundos destinados a pesquisa agrícola nos últimos anos. “O Banco Mundial e, francamente, os próprios governos, investiram menos em agricultura”, disse seu presidente, Robert Zoellick. “Temos um enfoque baseado nos países, segundo o qual as nações são nossos clientes e decidem onde concentrar-se. Investimos mais em luta contra a Aids e a malária e em outros projetos, enquanto houve um claro desinvestimento em agricultura”, admitiu na semana passada, em Berna. “Não creio que seja útil apontar este ou aquele responsável. A questão-chave é, reconhecida a necessidade, com iremos atendê-la”, destacou Zoellick. A Primeira Conferência Mundial sobre Alimentação, convocada pela FAO em 1974, proclamou que “todo homem, mulher e criança tem o direito inalienável de estar livre da fome e da desnutrição para desenvolver suas faculdades físicas e mentais”. Entre as metas estabelecidas pela conferência figuravam erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar e reduzir a desnutrição “em uma década”. Porém, esses objetivos nunca foram atingidos. Em novembro de 1995, a FAO abrigou outra Cúpula Mundial sobre a Alimentação, que aprovou a Declaração de Roma sobre Segurança Alimentar Mundial e um plano de ação para acabar ou minimizar com a fome. A atual crise precipitou a convocação da terceira cúpula, também em Roma, entre 3 e 5 de junho. Prevê-se que chefes de Estado e de governo acordem nessa oportunidade outro plano contra a fome. Depois de quase 34 anos da primeira cúpula da FAO e de dezenas de resoluções e informes da ONU a respeito, o mundo em desenvolvimento enfrenta nova escassez mundial de alimentos e um inédito encarecimento destes produtos. O preço de uma tonelada de arroz, principal insumo alimentar de boa parte da Ásia, aumentou de US$ 460 em março para atuais U$ 950. Diouf advertia em outubro de 2006 que “as promessas não são substitutas da comida”. Hoje, vivem no mundo em desenvolvimento mais desnutridos do que em 1996, quando os líderes do mundo acordaram reduzir esse flagelo, recordou Diouf. A cifra aumenta quatro milhões anuais e agora são 820 milhões anuais. O Banco Mundial calculou que cerca de cem milhões de pessoas caíram na pobreza devido ao atual ciclo de aumento de preços. Ban identificou na semana passada em Berna, na presença de 26 chefes de agências da ONU, várias causas para a atual crise alimentar: encarecimento da energia, falta de investimentos agrícolas, crescente demanda, subsídios e problemas meteorológicos.
(Envolverde/IPS)
Michael Conroy anuncia a revolução pela certificação de produtos
Por Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos
O economista e consultor americano Michael Conroy vê uma revolução no horizonte. Ela está surgindo por meio da certificação de produtos que estejam adequados a práticas socialmente e ambientalmente responsáveis. Um sistema de certificação com credibilidade é, segundo ele, a melhor forma de as grandes empresas garantirem que estão fazendo negócios respeitando a sociedade e o meio ambiente, e não o contrário. E é uma resposta à pressão social exercida principalmente por campanhas lideradas pelas ONGs. De Austin, no Texas, onde fica a sede da Colibri Consulting, empresa que ele dirige e que atua em certificação e desenvolvimento sustentável, Conroy falou sobre como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações. Essa história ele conta em detalhes no livro "Certificado! - A Certificação de Produtos Transformando as Corporações Globais", que será lançado no Brasil em junho, pela WGB Editora.
Instituto Ethos: Você diz no seu livro que as ONGs têm afetado os mercados corporativos. De onde vem esse poder? Como elas conseguem fazer com que as grandes empresas transformem suas práticas em socialmente responsáveis?
Michael Conroy: Neste mundo que se globaliza rapidamente, o mais importante ativo das grandes companhias é sua marca, isto é, seu nome e sua reputação. As ONGs descobriram novos e poderosos meios de desafiar essas companhias comunicando aos clientes das empresas e aos consumidores finais sobre qualquer problema que exista na cadeia de valor. Evidências de que um varejista está comprando carne da região amazônica, onde essa carne pode ser ligada diretamente à devastação da floresta, proporcionam uma base muito fácil - e muito dramática - para atacar a marca da companhia, diminuindo sua participação no mercado e prejudicando o valor das ações da empresa nos mercados financeiros. Uma campanha parecida contra o McDonald's, alguns anos atrás, o forçou a parar de comprar carne de áreas onde as florestas estavam sendo devastadas e a começar a criar fazendas de gado para obter carne.
IE: Por que as grandes empresas respondem a essas pressões? É a única maneira de continuar no mercado?
MC: As empresas que se recusam a reconhecer que a sociedade civil, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, está cada vez mais consciente da conexão entre a destruição das florestas e as mudanças climáticas, e se recusam a mudar suas práticas, estão sob grande risco de perder seus mercados e o valor das suas ações, quando elas forem relacionadas à destruição das florestas. Não é preciso que os consumidores sejam completamente educados ambientalmente; basta que as empresas mais inteligentes reconheçam que elas arriscam suas marcas se forem associadas com práticas ambientalmente irresponsáveis.
IE: No seu livro, você menciona que a Nestlé e a Starbucks começaram a pagar mais pelo café que compram de seus fornecedores. Por que fizeram isso?
MC: Eles concordaram em pagar mais pelo café que tinha uma nova qualidade, uma "qualidade ética", que assegurava a seus consumidores que um preço justo tinha sido pago pelo café, e que um sistema válido de certificação estava em vigor para assegurá-los de que a reivindicação "ética" era válida. Esse sistema de certificação é o Fair Trade Certified (Certificado de Comércio Justo), e ele garante aos consumidores que os fazendeiros receberam não apenas um preço mais alto pelo café do que é pago pelos "coiotes" locais, mas também um "prêmio social" que contribui para o desenvolvimento econômico das suas comunidades. A resposta dos consumidores foi tão grande que o Fair Trade Certified é o segmento que mais cresce na indústria de café em todo o mundo.
IE: Uma grande empresa pode ser lucrativa se tiver de pagar mais a seus fornecedores?
MC: Sim, pode, se ela estiver pagando por produtos certificados com credibilidade para carregar essa nova "qualidade ética", e se os consumidores estiverem dispostos a pagar um preço levemente mais alto como uma forma de contribuir para uma globalização mais equânime, por meio da criação de um sistema mais igualitário de comércio por todo o mundo. Desde que meu livro foi publicado nos Estados Unidos, o Wal-Mart pode ser acrescentado à lista das empresas que estão importando grandes quantidades de café, a maior parte do Brasil, que é Fair Trade Certified. Processando e embalando o café no Brasil, o Wal-Mart descobriu uma maneira de colocá-lo nas lojas dos Estados Unidos a um preço competitivo. Isso gerou respostas muito positivas dos consumidores do Wal-Mart, que são muito sensíveis a preço. Mesmo os consumidores do Wal-Mart gostam de ter a satisfação de contribuir para um mundo melhor.
IE: O subtítulo do seu livro em inglês é "como a revolução da certificação está transformando as corporações globais". Por que a certificação é uma revolução? Que tipo de mudança a certificação pode trazer aos negócios, ao comportamento das empresas e à sociedade?
MC: No ultimo século, as grandes corporações, especialmente as transnacionais, cresceram de uma maneira que é quase impossível para a sociedade civil exercer algum controle sobre suas práticas sociais e ambientais. Elas são mais poderosas do que muitos governos! Nenhuma nação pode controlar as atividades delas fora de suas fronteiras. E a Organização Mundial do Comércio proíbe os países de banir a importação de produtos com base no fato de eles serem produzidos de maneira responsável ou irresponsável. Esta parece ter sido a era em que as corporações dominavam o mundo. Mas, nos últimos quinze anos, a sociedade civil aprendeu que a combinação de "campanhas de marketing" duras, claras e precisas, que movem as corporações na direção de melhorar suas práticas, além de sistemas de certificação que validam com independência se as companhias estão cumprindo essas melhores práticas, pode devolver às sociedade civil a influência sobre as práticas das grandes corporações. E parece não haver fim para o número de indústrias sobre as quais isto pode ser aplicado. Isso é revolucionário!
IE: No Brasil, há uma campanha contra comer carne que venha de gado criado na Amazônia. É possível salvar a floresta se recusando a comer esse tipo de carne? Os produtores de carne e os varejistas responderão a isso, ou essas campanhas são uma pregação no deserto?
MC: Isso não vai acontecer imediatamente, essas campanhas levam tempo para se desenvolver. Mas estamos descobrindo que o reconhecimento por parte das empresas do dano que essas campanhas de marketing podem fazer está levando-as a responder muito mais rapidamente. E, mais importante, as empresas estão começando a perceber que há um mercado importante para produtos socialmente e ambientalmente responsáveis. Por isso, as empresas estão pedindo às ONGs que as ajudem a desenvolver novos sistemas de certificação para uma variedade completa de novos produtos. Isso é o que está acontecendo, por exemplo, na indústria de mineração. Veja o site www.responsiblemining.net para ter um exemplo da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável (IRMA, na sigla em inglês), que está surgindo como um sistema de certificação para a mineração.
(Instituto Ethos)
O economista e consultor americano Michael Conroy vê uma revolução no horizonte. Ela está surgindo por meio da certificação de produtos que estejam adequados a práticas socialmente e ambientalmente responsáveis. Um sistema de certificação com credibilidade é, segundo ele, a melhor forma de as grandes empresas garantirem que estão fazendo negócios respeitando a sociedade e o meio ambiente, e não o contrário. E é uma resposta à pressão social exercida principalmente por campanhas lideradas pelas ONGs. De Austin, no Texas, onde fica a sede da Colibri Consulting, empresa que ele dirige e que atua em certificação e desenvolvimento sustentável, Conroy falou sobre como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações. Essa história ele conta em detalhes no livro "Certificado! - A Certificação de Produtos Transformando as Corporações Globais", que será lançado no Brasil em junho, pela WGB Editora.
Instituto Ethos: Você diz no seu livro que as ONGs têm afetado os mercados corporativos. De onde vem esse poder? Como elas conseguem fazer com que as grandes empresas transformem suas práticas em socialmente responsáveis?
Michael Conroy: Neste mundo que se globaliza rapidamente, o mais importante ativo das grandes companhias é sua marca, isto é, seu nome e sua reputação. As ONGs descobriram novos e poderosos meios de desafiar essas companhias comunicando aos clientes das empresas e aos consumidores finais sobre qualquer problema que exista na cadeia de valor. Evidências de que um varejista está comprando carne da região amazônica, onde essa carne pode ser ligada diretamente à devastação da floresta, proporcionam uma base muito fácil - e muito dramática - para atacar a marca da companhia, diminuindo sua participação no mercado e prejudicando o valor das ações da empresa nos mercados financeiros. Uma campanha parecida contra o McDonald's, alguns anos atrás, o forçou a parar de comprar carne de áreas onde as florestas estavam sendo devastadas e a começar a criar fazendas de gado para obter carne.
IE: Por que as grandes empresas respondem a essas pressões? É a única maneira de continuar no mercado?
MC: As empresas que se recusam a reconhecer que a sociedade civil, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, está cada vez mais consciente da conexão entre a destruição das florestas e as mudanças climáticas, e se recusam a mudar suas práticas, estão sob grande risco de perder seus mercados e o valor das suas ações, quando elas forem relacionadas à destruição das florestas. Não é preciso que os consumidores sejam completamente educados ambientalmente; basta que as empresas mais inteligentes reconheçam que elas arriscam suas marcas se forem associadas com práticas ambientalmente irresponsáveis.
IE: No seu livro, você menciona que a Nestlé e a Starbucks começaram a pagar mais pelo café que compram de seus fornecedores. Por que fizeram isso?
MC: Eles concordaram em pagar mais pelo café que tinha uma nova qualidade, uma "qualidade ética", que assegurava a seus consumidores que um preço justo tinha sido pago pelo café, e que um sistema válido de certificação estava em vigor para assegurá-los de que a reivindicação "ética" era válida. Esse sistema de certificação é o Fair Trade Certified (Certificado de Comércio Justo), e ele garante aos consumidores que os fazendeiros receberam não apenas um preço mais alto pelo café do que é pago pelos "coiotes" locais, mas também um "prêmio social" que contribui para o desenvolvimento econômico das suas comunidades. A resposta dos consumidores foi tão grande que o Fair Trade Certified é o segmento que mais cresce na indústria de café em todo o mundo.
IE: Uma grande empresa pode ser lucrativa se tiver de pagar mais a seus fornecedores?
MC: Sim, pode, se ela estiver pagando por produtos certificados com credibilidade para carregar essa nova "qualidade ética", e se os consumidores estiverem dispostos a pagar um preço levemente mais alto como uma forma de contribuir para uma globalização mais equânime, por meio da criação de um sistema mais igualitário de comércio por todo o mundo. Desde que meu livro foi publicado nos Estados Unidos, o Wal-Mart pode ser acrescentado à lista das empresas que estão importando grandes quantidades de café, a maior parte do Brasil, que é Fair Trade Certified. Processando e embalando o café no Brasil, o Wal-Mart descobriu uma maneira de colocá-lo nas lojas dos Estados Unidos a um preço competitivo. Isso gerou respostas muito positivas dos consumidores do Wal-Mart, que são muito sensíveis a preço. Mesmo os consumidores do Wal-Mart gostam de ter a satisfação de contribuir para um mundo melhor.
IE: O subtítulo do seu livro em inglês é "como a revolução da certificação está transformando as corporações globais". Por que a certificação é uma revolução? Que tipo de mudança a certificação pode trazer aos negócios, ao comportamento das empresas e à sociedade?
MC: No ultimo século, as grandes corporações, especialmente as transnacionais, cresceram de uma maneira que é quase impossível para a sociedade civil exercer algum controle sobre suas práticas sociais e ambientais. Elas são mais poderosas do que muitos governos! Nenhuma nação pode controlar as atividades delas fora de suas fronteiras. E a Organização Mundial do Comércio proíbe os países de banir a importação de produtos com base no fato de eles serem produzidos de maneira responsável ou irresponsável. Esta parece ter sido a era em que as corporações dominavam o mundo. Mas, nos últimos quinze anos, a sociedade civil aprendeu que a combinação de "campanhas de marketing" duras, claras e precisas, que movem as corporações na direção de melhorar suas práticas, além de sistemas de certificação que validam com independência se as companhias estão cumprindo essas melhores práticas, pode devolver às sociedade civil a influência sobre as práticas das grandes corporações. E parece não haver fim para o número de indústrias sobre as quais isto pode ser aplicado. Isso é revolucionário!
IE: No Brasil, há uma campanha contra comer carne que venha de gado criado na Amazônia. É possível salvar a floresta se recusando a comer esse tipo de carne? Os produtores de carne e os varejistas responderão a isso, ou essas campanhas são uma pregação no deserto?
MC: Isso não vai acontecer imediatamente, essas campanhas levam tempo para se desenvolver. Mas estamos descobrindo que o reconhecimento por parte das empresas do dano que essas campanhas de marketing podem fazer está levando-as a responder muito mais rapidamente. E, mais importante, as empresas estão começando a perceber que há um mercado importante para produtos socialmente e ambientalmente responsáveis. Por isso, as empresas estão pedindo às ONGs que as ajudem a desenvolver novos sistemas de certificação para uma variedade completa de novos produtos. Isso é o que está acontecendo, por exemplo, na indústria de mineração. Veja o site www.responsiblemining.net para ter um exemplo da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável (IRMA, na sigla em inglês), que está surgindo como um sistema de certificação para a mineração.
(Instituto Ethos)
Fatores transitórios e estruturais na explosão dos preços
A deterioração dos termos de intercâmbio é um dos dentes da engrenagem histórica do subdesenvolvimento, fenômeno que não caracteriza uma fase do desenvolvimento, mas uma forma especifica e distorcida de inserção das economias periféricas no sistema capitalista mundial. Relações coloniais fortemente estruturadas em torno da exportação de produtos primários modelaram originalmente essa característica da maioria das economias surgidas na periferia do sistema internacional. No século XXI, algumas delas exibem uma margem de maior controle graças à expansão da base industrial em evolução. Algumas exceções apenas reafirmam a regra latino-americana e caribenha pela qual predominam padrões internos de difusão da riqueza majoritariamente circunscritos a núcleos exportadores minerais ou agrícolas. Trata-se de um corolário de concentração de renda em sistemas produtivos que se mantêm vinculados ao humor variável do comércio mundial de matérias-primas. A trajetória da América Latina e do Caribe está marcada por ciclos tão intensos quanto efêmeros, com aqueles da prata, do ouro, do açúcar e do café, para citar alguns exemplos do passado, ao lado dos atuais da soja, do minério de ferro e do cobre. A natureza cíclica é o fio condutor que os persegue, deixando em evidência a persistência de padrões de intercâmbio que transferem ao exterior as capacidades de tomar decisões relativas ao desenvolvimento. A repetição das perdas resultantes desse padrão comercial foi analisada originalmente na década de 50, no inicio da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), pelo argentino Raúl Prebish, e posteriormente estudadas pelo brasileiro Celso Furtado, que explicou detalhadamente as limitações estruturais reproduzidas por esse modelo que perpetua condições de subordinação econômica e política ao longo da historia latino-americana e caribenha. Nos últimos cinco anos, a explosão dos preços das matérias-primas abriu uma tendência à alta em um dos dentes dessa engrenagem, mas, ainda insuficiente para alterar a lógica do conjunto dado a conhecer por Celso Furtado. Desde 2003, segundo o índice do Commodity Research Bureau (CRB), a média dos preços de 24 produtos primários agrícolas registrou alta de 50% de suas cotações mundiais. Mas, ao ampliar o campo de observação a um intervalo maior, entre 1974 e 2004, a revista The Economist constatou um retrocesso acumulado de 75% para esses produtos. Ou seja, apenas uma parte das perdas foi recuperada. É importante avaliar ano a ano os fatores que impulsionaram a alta recente dos preços, de modo que se possa separar aqueles de natureza estrutural e outros de cunho especulativo. Nesse exercício podemos identificar três momentos distintos. Entre 20002 e 2004 houve aumento no consumo de alimentos com maior valor protéico – principalmente carne e lácteos – por parte de populações pobres em países em desenvolvimento, entre eles, Brasil, China e Índia. Praticamente no mesmo momento, os Estados Unidos aumentaram, de forma explosiva, sua previsão de consumo de etanol, influenciando, assim, a demanda pelo milho. Se esse período foi marcado pelo crescimento da demanda, o seguinte refletiu cerca escassez na oferta. Entre 2004 e 2006 ocorreram significativas perdas na produção mundial de cereais devido a fenômenos climáticos, como secas na China e na Austrália e furacões na América Central e no Caribe. Isso comprimiu as reservas mundiais de cereais em um momento de crescimento do consumo. A partir de 2007 é basicamente o componente especulativo que influi na alta continuada dos preços: enfrentados com as incertezas econômicas, muitos investimentos buscaram refúgio rentável nos fundos de commodities – agrícolas e não-agrícolas. Portanto, dois elementos caracterizam o atual ciclo de flutuação de preços: o peso do componente financeiro e a natureza inédita de uma demanda que resulta da expansão de consumo em países pobres. A primeira característica é transitória, enquanto a segunda pode resultar em uma mudança estrutural no fluxo e na intensidade do comércio dos alimentos e das matérias-primas. São dinâmicas em curso, mas algumas lições já podem ser extraídas desses movimentos. A primeira reafirma os riscos implícitos na dependência das exportações de bens primários, com já advertiam Prebisch e Celso Furtado há décadas. A segunda destaca a necessidade de contrapesos de política econômica para ampliar o leque de produtores beneficiados por ciclos de aumento da demanda por alimentos. O fortalecimento dos pequenos agricultores e de assentamentos organizados em cooperativas, por exemplo, ampliaria o circuito da riqueza proporcionando maior possibilidade de crescimento sustentável. Nesse sentido, é oportuno recordar que a metade dos mais de 70 milhões de indigentes da América Latina e do Caribe, vivem em áreas rurais. Para eles, a alta dos preços é uma oportunidade de superar a pobreza, sempre que, além das tradicionais políticas de crédito e assistência técnica, tenham garantiras de mercado para seus produtos. Isso pode ser feito, por exemplo, através da compra pelo governo de sua produção para formar reservas e para merenda escolar. O balanço preliminar da atual crise recomenda uma autocrítica das teses neomalthusianas que atribuíram à agroenergia a principal responsabilidade pelos saltos nas cotações das commodities, dessa forma minimizando o componente fortemente especulativo – reconhecido agora pelo próprio governo norte-americano ao propor uma ação conjunta da Commodity Futures Trading Commission (que fiscaliza os mercados futuros desses produtos) com a Security Exchange Commission (que regulamenta os ativos financeiros). A agroenergia, ao contrário, emerge da atual crise financeira como um porto seguro de consistência real e continuidade estratégica. Por mais que a demanda mundial por commodities diminua no curto prazo, o desafio de reconstruir a matriz energética do século XXI está apenas começando. A agroenergia pode ajudar a sustentar a expansão dos países pobres inaugurando uma nova dinâmica de independência comercial – com a industrialização das plantações para a produção de combustíveis e assim criar pontes entre a agricultura familiar e um setor de ponta da economia mundial que veio para ficar.
* José Graziano da Silva é representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe.
(Carta Maior)
* José Graziano da Silva é representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe.
(Carta Maior)
Quatro “erres” contra o consumismo
A fome é uma constante em todas as sociedades históricas. Hoje, entretanto, ela assume dimensões vergonhosas e simplesmente cruéis. Revela uma humanidade que perdeu a compaixão e a piedade. Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo. A sociedade dominante é notoriamente consumista. Dá centralidade ao consumo privado, sem auto-limite, como objetivo da própria sociedade e da vida das pessoas. Consome não apenas o necessário, o que é justificável, mas o supérfluo, o que questionavel. Esse consumismo só é possível porque as políticas econômicas que produzem os bens supérfluos são continuamente alimentadas, apoiadas e justificadas. Grande parte da produção se destina a gerar o que, na realidade, não precisamos para viver decentemente. Como se trata do supérfluo, recorrem-se a mecanismos de propaganda, de marketing e de persuasão para induzir as pessoas a consumir e a fazê-las crer que o supérfluo é necessário e fonte secreta da felicidade. O fundamental para este tipo de marketing é criar hábitos nos consumidores a tal ponto que se crie neles uma cultura consumista e a necessidade imperiosa de consumir. Mais e mais se suscitam necessidades artificiais e em função delas se monta a engrenagem da produção e da distribuição. As necessidades são ilimitadas, por estarem ancoradas no desejo que, por natureza, é ilimitado. Em razão disso, a produção tende a ser também ilimitada. Surge então uma sociedade, já denunciada por Marx, marcada por fetiches, albarrotada de bens supérfluos, pontilhada de shoppings, verdadeiros santuários do consumo, com altares cheios de ídolos milagreiros, mas ídolos, e, no termo, uma sociedade insatisfeita e vazia porque nada a sacia. Por isso, o consumo é crescente e nervoso, sem sabermos até quando a Terra finita aguentará essa exploração infinita de seus recursos. Não causa espanto o fato de o Presidente Bush conclamar a população para consumir mais e mais e assim salvar a economia em crise, lógico, à custa da sustentabilidade do planeta e de seus ecossistemas. Contra isso, cabe recordar as palavras de Robert Kennedy, em 18 de março de 1968: ”Não encontraremos um ideal para a nação nem uma satisfação pessoal na mera acumulação e no mero consumo de bens materiais. O PIB não contempla a beleza de nossa poesia, nem a solidez dos valores familiares, não mede nossa argúcia, nem a nossa coragem, nem a nossa compaixão, nem a nossa devoção à pátria. Mede tudo menos aquilo que torna a vida verdadeiramente digna de ser vivida”. Três meses depois foi assassinado. Para enfrentar o consumismo urge sermos conscientemente anti-cultura vigente. Há que se incorporar na vida cotidiana os quatro “erres” principais: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando-lhes outro fim e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido. Sem este espírito de rebeldia consequente contra todo tipo de manipulação do desejo e com a vontade de seguir outros caminhos ditados pela moderação, pela justa medida e pelo consumo responsável e solidário, corremos o risco de cairmos nas insídias do consumismo, aumentando o número de famintos e empobrecendo o planeta já devastado.
Por Leonardo Boff*
(Envolverde)
Por Leonardo Boff*
(Envolverde)
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Quotas
JORNALEGO
ANO III - Nº 74, em 20 de Junho de 2004
Opinião
QUOTAS? SOU CONTRA!
Não me conformo com a existência de inúmeras quotas que vêm sendo aplicadas pela sociedade brasileira ao longo do tempo, beneficiando alguns segmentos já beneficiados de nossa população.
Quase todos os filhos das classes mais bem situadas no Brasil têm ingresso assegurado em nossas faculdades. Só ficam de fora aqueles que efetivamente não querem entrar. Preferencialmente nas universidades públicas, que são gratuitas. Mas como são as mais difíceis de se ter ingresso, principalmente pela concorrência, sobra-lhes a oportunidade de cursar os centros de ensino superior da iniciativa privada.
Suas quotas estão garantidas desde a gestação. Têm acompanhamento médico, parto cuidadoso, alimentação, habitação, afeto etc. A seguir vem a freqüência em escolas de primeiro e segundo graus do ensino privado, atualmente muito melhores do que as da rede de ensino público. Como complemento, o treinamento em cursinhos pré-vestibulares. Acesso à cultura, à arte e a outras benesses.
Logicamente, sou contra as quotas orçamentárias, nos vários níveis de governo, que restringem a melhoria do ensino público.
Sou também contra as quotas discriminatórios dos planos de saúde e de seguridade social que nos (mudei o tratamento para ficar mais comprometido com o tema) permitem ter o melhor dos atendimentos médicos, em ótimos centros hospitalares, e aposentadorias decentes, o que é possível mediante pagamentos mensais, nem sempre módicos, mas suportáveis. Devidamente regulados por legislação federal e administrados por poderosos fundos de pensão.
Sou contra as quotas que nos possibilitam andar em veículos particulares, sem as agruras do transporte público. Morar em boas casas e bons apartamentos, em bairros bonitos, salutares, sempre objeto dos cuidados da municipalidade. Sou contra também as quotas que nos capacita ter casas de campo ou de praia, viajar para lugares aprazíveis e conhecer o exterior. Freqüentar, resguardados da violência urbana, os shoppings centers das nobres periferias urbanas.
Sou contra a quota que beneficia os portadores de diploma universitário a ter tratamento privilegiado nas cadeias. As quotas que nos possibilitam também a contratação de bons advogados quando nos envolvemos com a justiça ou a polícia. Sabemos como defender nossos direitos e regalias.
Sou contra a quota que, pelas condições de renda e educação, nos permite a esperteza de burlar o pagamento de impostos e ser coniventes com a sonegação no comércio, sem exigir nota fiscal. O pretexto sempre é a alta carga tributária, “Não adianta colocar dinheiro na mão da classe política corrupta”.
Sou contra a quota dos aquinhoados com heranças, cujo imposto de transferência não conseguiu recentemente passar dos atuais 2% para 4%, conforme proposto pelo governo federal, com o argumento de que iria aumentar a carga fiscal.
Viajar de avião deve também obedecer a alguma quota. Isso porque nas poucas vezes que uso a aviação comercial dou uma olhada atenta pela sala de embarque e raramente encontro um negro ou pardo, em contraste com a maior participação desta cor de pele na população brasileira.
Nos restaurantes, principalmente os menos populares, nem sequer os garçons são negros.
Essas quotas contra as quais me insurjo, vigoram há muito tempo! No meu tempo de curso primário, em escola particular, só tive um colega negro. Era um bolsista de um orfanato que, coitado, não deu para competir conosco.
Nas minhas classes dos cursos ginasial e colegial, o primeiro em escola particular, o segundo em escola pública, se me lembro bem, tive um ou dois colegas negros.
No período universitário, na federal, não tive nenhum colega negro.
No mestrado, todos eram brancos.
No Planejamento da Petrobras, os técnicos eram todos brancos com uma única exceção. No Ministério de Minas e Energia e com quem lidávamos em outras áreas da esfera federal, todos eram brancos, também com uma única exceção.
Os bolsistas brasileiros no meu curso da Holanda eram brancos o que causou espanto a um colega turco que pensava que a população brasileira fosse negra, pois só conhecia dois dos seus representantes: Pelé e Didi.
Essas quotas discriminatórias são odiosas e insidiosas! Elas estão presentes em quase todos os segmentos de nossa vida, de forma mascarada, nem por isso menos agressivas.
Enfim, sonho com um país sem quotas e bato-me também contra as quotas da ignorância ou da inocência, do cinismo ou da hipocrisia.
P.S. - Sensacional o título de uma crítica do filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Moreira Salles, numa edição de um jornal local: “Cada um escolhe a sua margem do rio”.
ANO III - Nº 74, em 20 de Junho de 2004
Opinião
QUOTAS? SOU CONTRA!
Não me conformo com a existência de inúmeras quotas que vêm sendo aplicadas pela sociedade brasileira ao longo do tempo, beneficiando alguns segmentos já beneficiados de nossa população.
Quase todos os filhos das classes mais bem situadas no Brasil têm ingresso assegurado em nossas faculdades. Só ficam de fora aqueles que efetivamente não querem entrar. Preferencialmente nas universidades públicas, que são gratuitas. Mas como são as mais difíceis de se ter ingresso, principalmente pela concorrência, sobra-lhes a oportunidade de cursar os centros de ensino superior da iniciativa privada.
Suas quotas estão garantidas desde a gestação. Têm acompanhamento médico, parto cuidadoso, alimentação, habitação, afeto etc. A seguir vem a freqüência em escolas de primeiro e segundo graus do ensino privado, atualmente muito melhores do que as da rede de ensino público. Como complemento, o treinamento em cursinhos pré-vestibulares. Acesso à cultura, à arte e a outras benesses.
Logicamente, sou contra as quotas orçamentárias, nos vários níveis de governo, que restringem a melhoria do ensino público.
Sou também contra as quotas discriminatórios dos planos de saúde e de seguridade social que nos (mudei o tratamento para ficar mais comprometido com o tema) permitem ter o melhor dos atendimentos médicos, em ótimos centros hospitalares, e aposentadorias decentes, o que é possível mediante pagamentos mensais, nem sempre módicos, mas suportáveis. Devidamente regulados por legislação federal e administrados por poderosos fundos de pensão.
Sou contra as quotas que nos possibilitam andar em veículos particulares, sem as agruras do transporte público. Morar em boas casas e bons apartamentos, em bairros bonitos, salutares, sempre objeto dos cuidados da municipalidade. Sou contra também as quotas que nos capacita ter casas de campo ou de praia, viajar para lugares aprazíveis e conhecer o exterior. Freqüentar, resguardados da violência urbana, os shoppings centers das nobres periferias urbanas.
Sou contra a quota que beneficia os portadores de diploma universitário a ter tratamento privilegiado nas cadeias. As quotas que nos possibilitam também a contratação de bons advogados quando nos envolvemos com a justiça ou a polícia. Sabemos como defender nossos direitos e regalias.
Sou contra a quota que, pelas condições de renda e educação, nos permite a esperteza de burlar o pagamento de impostos e ser coniventes com a sonegação no comércio, sem exigir nota fiscal. O pretexto sempre é a alta carga tributária, “Não adianta colocar dinheiro na mão da classe política corrupta”.
Sou contra a quota dos aquinhoados com heranças, cujo imposto de transferência não conseguiu recentemente passar dos atuais 2% para 4%, conforme proposto pelo governo federal, com o argumento de que iria aumentar a carga fiscal.
Viajar de avião deve também obedecer a alguma quota. Isso porque nas poucas vezes que uso a aviação comercial dou uma olhada atenta pela sala de embarque e raramente encontro um negro ou pardo, em contraste com a maior participação desta cor de pele na população brasileira.
Nos restaurantes, principalmente os menos populares, nem sequer os garçons são negros.
Essas quotas contra as quais me insurjo, vigoram há muito tempo! No meu tempo de curso primário, em escola particular, só tive um colega negro. Era um bolsista de um orfanato que, coitado, não deu para competir conosco.
Nas minhas classes dos cursos ginasial e colegial, o primeiro em escola particular, o segundo em escola pública, se me lembro bem, tive um ou dois colegas negros.
No período universitário, na federal, não tive nenhum colega negro.
No mestrado, todos eram brancos.
No Planejamento da Petrobras, os técnicos eram todos brancos com uma única exceção. No Ministério de Minas e Energia e com quem lidávamos em outras áreas da esfera federal, todos eram brancos, também com uma única exceção.
Os bolsistas brasileiros no meu curso da Holanda eram brancos o que causou espanto a um colega turco que pensava que a população brasileira fosse negra, pois só conhecia dois dos seus representantes: Pelé e Didi.
Essas quotas discriminatórias são odiosas e insidiosas! Elas estão presentes em quase todos os segmentos de nossa vida, de forma mascarada, nem por isso menos agressivas.
Enfim, sonho com um país sem quotas e bato-me também contra as quotas da ignorância ou da inocência, do cinismo ou da hipocrisia.
P.S. - Sensacional o título de uma crítica do filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Moreira Salles, numa edição de um jornal local: “Cada um escolhe a sua margem do rio”.
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