domingo, 16 de novembro de 2008

Bush prepara o mundo para Obama

Jim Lobe, da IPS
A continuidade da política externa a ser seguida pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, com a do atual, George W. Bush, poderá surpreender os simpatizantes do líder democrata e o resto do mundo. Essa continuidade se verá reforçada se, tal como se espera, o atual secretário de Defesa, Robert Gates, receber o pedido para permanecer no cargo após 20 de janeiro, data da posse de Obama. Os pontos em comum entre as duas políticas não se devem a uma falta de apego de Obama por seus compromissos de campanha, mas - muito pelo contrário - ao fato de Bush ter feito, sem alarde, algumas correções de rumo em direção compatível com as idéias de seu sucessor.
Sem dúvida, Obama fará, antes ou pouco depois de assumir, anúncios que ratificarão o multilateralismo e a estratégia de ação diplomática, que contrastam com o uso do poder militar e o unilateralismo característicos da gestão Bush. Provavelmente, incluirá nesses anúncios uma imediata proibição da tortura e a promessa de fechar, no curto prazo, o centro de reclusão de prisioneiros na “guerra contra o terror” declarada por Bush e instalada na base naval norte-americana de Guantânamo, em Cuba. Além disso, é muito provável que Obama atue com rapidez para melhorar as relações com dois países com os quais Bush mostrou uma incrível hostilidade: Cuba e Síria.
Espera-se que o presidente eleito levante as restrições à liberdade dos cubanos que vivem nos Estados Unidos, ou seus descendentes, para visitar a ilha e enviarem dinheiro aos seus parentes. Analistas consideram que no futuro avançará para a normalização do vínculo. Já a Síria enviará um embaixador como sinal de interesse em renovar a cooperação contra o extremismo violento e estimular o reinício do diálogo de paz entre esse país e Israel, co a mediação da Turquia, ou inclusive um processo de maiores alcances. Também espera-se que Obama anuncie a adesão plena ao regime que substituirá o Protocolo de Kyoto contra a mudança climática, do qual Bush retirou a assinatura norte-americana logo após assumir seu primeiro mandato, em 2001.
Observadores dizem que Washington adotaria reduções de cumprimento obrigatório na emissão de gases causadores do efeito estufa, aos quais a maioria dos cientistas atribui grande parte do atual ciclo de aquecimento global. Além disso, Obama poderia promover a ratificação no Senado do tratado de proibição de testes com armas nucleares, bem com como aos quais Bush se opunha, como as convenções da Organização das Nações Unidas sobre direitos das crianças e eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher.
Obama também se mostraria disposto a negociar um redesenho da arquitetura financeira internacional, tal como propõem aliados europeus dos Estados Unidos, para fortalecer os organismos de controle financeiro e incrementar significativamente o voto das economias emergentes no Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e outros órgãos dominados pelos países ricos. Estes passos, além de gerar uma corrente de simpatia no exterior, servirão a Obama para acentuar o contraste com Bush, cujo unilateralismo e imagem de caubói levou a imagem dos Estados Unidos entre os cidadãos de outros países ao seu nível histórico mais baixo.
Porém, essa imagem de Bush agora é um pouco antiquada. Embora a tenha ganhado justamente durante seu primeiro mandato (2001-2005), quando os neoconservadores ditavam a política externa de Washington, foi modificando-a nos últimos dois anos. Escaldado pelo curso que tomou a invasão do Iraque, Bush foi guiado pelos representantes da chamada escola “realista”, essencialmente a secretária de Estado, Condoleezza Rice, Gates e os máximos chefes militares, para estabelecer as bases do “novo amanhecer” ao qual Obama faz referencia, especialmente em áreas-chave em crise.
Por exemplo, apesar dos protestos dos “falcões” que rodeavam o vice-presidente, Dick Cheney, Bush seguiu os conselhos de Rice e fez concessões à Coréia do Norte para manter viva as negociações destinadas a “desnuclearizar” essa nação asiática. Da mesma forma, Bush levantou seu embargo diplomático contra o Irã, enviando o subsecretário de Estado, William Burns, para conversar com seu colega iraniano, em um encontro que incluiu outros membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha. Significativamente, Burns será a principal ligação do Departamento de Estado com a equipe de transição de Obama.
O governo atual também parece estar próximo de anunciar que abrirá um escritório de interesses em Teerã, o que implica o reinício das relações diplomáticas interrompidas há 29 anos. E o fará antes da posse de Obama. Esse passo tornará mais simples para o novo presidente iniciar um diálogo de alto nível com o Irã, sem pré-condições, no momento em que desejar. Isso será, possivelmente, logo após as eleições presidenciais de junho nesse país, para não aumentar as chances de reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Além disso, após ignorar durante quase sete anos o conflito entre israelenses e palestinos, Bush relançou as negociações de paz em novembro, na cúpula de Annapolis. Não houve grandes avanços, por causa das eleições de fevereiro em Israel, e não existirão até o final de seu mandato. Obama herdará um processo que poderia empregar para concretizar sua promessa de chegar a uma solução baseada na existência de dois Estados independentes.
Inclusive no Afeganistão e Iraque, Bush ajudou a preparar o terreno para os planos de seu sucessor de acelerar a retirada de mais tropas de combate no primeiro país e retirá-las do segundo. Obama argumenta, há muito tempo, que o Afeganistão é “a principal frente da guerra contra o terrorrismo”. Bush inclusive aceitou uma retirada de todas as forças norte-americanas do Iraque até 2012, não apenas as unidades de combate, que Obama prometeu repatriar em meados de 2010.
Quanto à Rússia, cuja invasão da Geórgia em agosto levou as relações bilaterais ao ponto de máxima tensão desde a Guerra Fria, tanto Bush quanto Obama agiram com relativa moderação. Embora a insistência de Bush em instalar sistemas de mísseis na Europa central e oriental seja mais provocativa do que a ambígua posição de Obama a respeito, levou em conta nos últimos dias as preocupações de Moscou e sentou as bases para chegar a um acordo que reduza significativamente os arsenais nucleares das duas potências. Estima-se que este ponto será uma prioridade de Obama no começo de seu governo.
Em outras áreas, a estratégia de diálogo do presidente eleito poderá avançar sobre êxitos de Bush que não receberam tanta atenção como os fracassos de sua “guerra contra o terrorismo”. Entre eles a melhoria das relações com a China, apesar da oposição dos “falcões”; com a Índia, através de um acordo de cooperação nuclear que coroou um vínculo estratégico em rápido crescimento, e com a África, onde o plano de US$ 15 bilhões para combater o HIV/Aids, fortemente apoiado por Obama, converteu esse continente na região onde Bush conta com melhor imagem, segundo as pesquisas.
(Envolverde/IPS)

Por Redação do Pnud

Por Redação do Pnud
Os estudos nacionais sobre desenvolvimento humano não devem se contentar com médias gerais - é importante investigar desigualdades internas, sugere um manual do PNUD sobre elaboração e divulgação de relatórios sociais. A ênfase pode ser dada a discrepâncias espaciais (entre Estados e municípios, por exemplo), individuais (sexo, idade, local de origem), de renda (ricos e pobres), de cor ou etnia ou de grau de instrução, sugere o documento.
A publicação, chamada Measuring Human Development: A Primer, salienta que os relatórios nacionais devem ir além do relatório internacional de desenvolvimento humano, publicado anualmente pelo PNUD. Neste, freqüentemente são usadas médias nacionais - por exemplo, para calcular o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). No entanto, “a realidade é que as pessoas dentro de um país não são idênticas.”, diz o texto do guia.
A desagregação, portanto, é uma importante ferramenta quando se quer detectar desigualdades locais por grupo étnico, sexo, classe social e região, entre outros diferenciais. “Uma comparação entre grupos étnicos pode indicar, por exemplo, qual grupo requer mais atenção”, observa o manual.
Como exemplo das possibilidades da desagregação, o guia destaca o Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005, que analisou renda, educação e saúde de negros e brancos brasileiros e concluiu que os negros enfrentam piores condições em todos os indicadores dessas áreas.
Outro ponto ressaltado pelo texto é a forma como os dados obtidos são publicados. Para que a informação chegue ao maior número possível de pessoas possível de forma compreensível, defende o manual, os textos devem usar números comedidamente e ligá-los ao tema do relatório social. Além disso, termos técnicos devem ser evitados. “Muitos números e termos estatísticos no texto do RDH podem intimidar até os leitores mais interessados.”, diz o texto.
(Envolverde/Pnud)

A indústria do conhecimento e do empreendedorismo

Thiago Romero, da Agência FAPESP
O Brasil precisaria de investimentos, públicos e privados, da ordem de R$ 10,2 bilhões nos próximos cinco anos para que seu sistema nacional de inovação e empreendedorismo dê um salto de qualidade. A condição, entretanto, é que esse salto seja impulsionado com a aplicação desses recursos na estruturação de cerca de 20 parques tecnológicos em regiões estratégicas do país.
Essas são as proposições do estudo Parques Tecnológicos no Brasil, organizado pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e divulgado nesta quinta-feira (13/11) durante a 4ª edição da Nanotec, feira do setor de nanotecnologia que se encerra hoje (14/11), em São Paulo.
“O estudo propõe estratégias para que o país comece a se preparar para a criação efetiva de uma indústria do conhecimento, tendo como ponto de partida uma nova estrutura de parques tecnológicos no Brasil”, disse o conselheiro da Anprotec e coordenador do levantamento, José Eduardo Fiates, à Agência FAPESP.
Os setores empresariais mais estimulados por esse universo de parques são os de tecnologias da informação e da comunicação, energia, biotecnologia, eletrônica, instrumentação, serviços, meio ambiente e agronegócios.
“Os parques tecnológicos são o ambiente favorável para as empresas por oferecerem os três elementos principais para que o conhecimento se transforme em desenvolvimento: acesso à tecnologia, relacionamento para a criação conjunta de soluções inovadoras e alta capacidade de penetração no mercado”, disse Fiates.
O trabalho foi realizado em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), no período de fevereiro de 2007 a março de 2008, sob encomenda dos ministérios da Ciência e Tecnologia e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Fiates explica que cerca de 50 entidades participaram da elaboração do estudo, da geração ao processamento dos dados, de associações de classe a órgãos estatais, passando pelas comissões de ciência e tecnologia da Câmara dos Deputados e do Senado, além de dezenas de universidades e institutos de pesquisa.
“Dez workshops foram realizados com a presença de especialistas em parques tecnológicos, brasileiros e do exterior, para a discussão dos dados e indicação dos resultados, após as sucessivas pesquisas de campo nos parques brasileiros, cujos dirigentes responderam a uma série de questionários”, disse Fiates.
O sistema de parques tecnológicos no Brasil foi comparado, no cenário internacional, a iniciativas semelhantes na França, Reino Unido, Espanha, Irlanda, Finlândia, Japão, China, Índia, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia e Estados Unidos.
“As simulações de investimentos do estudo foram feitas com base em comparações dos recursos destinados aos parques desses países. Tivemos acesso a números exatos de quanto se investiu nesses empreendimentos e fizemos ponderações, a partir dos dados coletados nos parques nacionais, para chegar aos números dos investimentos públicos e privados de que o Brasil necessita”, detalhou.
No mundo, são mais de 1,5 mil parques tecnológicos em atividade, sendo que, de acordo a Anprotec, nas experiências bem-sucedidas as empresas instaladas geram, em média, US$ 3 de receita anual para cada US$ 1 investido na implantação do parque.
Os resultados do estudo confirmam a iniciativa do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, projeto que teve origem em 2002 na Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, com apoio da FAPESP.
A meta do governo paulista é ter parques instalados em alguns dos principais centros de desenvolvimento econômico e tecnológico no estado, como a Grande São Paulo, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto e São José dos Campos. Além dessas, diversas outras cidades são candidatas a receber parques, como Piracicaba, Santa Bárbara do Oeste, Sorocaba e São José do Rio Preto.
Sérgio Risola, coordenador geral do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) da Universidade de São Paulo (USP), destaca que São José dos Campos é o primeiro a entrar em funcionamento no estado com o conceito de parque tecnológico.
O objetivo do governo de São Paulo é apoiar o setor privado para alavancar esses centros de inovação e implantar o Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, criando sinergias que possam assegurar a competitividade do estado.
Áreas prioritárias
Com as informações do estudo em mãos, a Anprotec pretende estimular os gestores públicos a definir quais serão os 20 parques, considerados de excelência, que estarão aptos a receber os incentivos.
O levantamento da Anprotec sugere ainda que, dos R$ 10,2 bilhões necessários para alavancar os parques tecnológicos no Brasil, cerca de R$ 1,9 bilhão tenha origem em investimentos públicos e o restante em aplicações privadas.
As políticas públicas sugeridas pelo estudo, segundo ele, são baseadas em dois eixos centrais. O primeiro se concentra na concepção da infra-estrutura dos parques tecnológicos e nos investimentos em projetos âncora de ciência, tecnologia e inovação. “O incentivo a esses projetos científicos é fundamental, caso contrário o parque pode acabar se tornando um condomínio industrial de empresas de base tecnológica”, disse Fiates.
O segundo pilar das políticas e estratégias sugeridas se baseia nos investimentos a pesquisa e desenvolvimento realizados dentro das empresas instaladas nos parques, incluindo recursos para a instalação de laboratórios e contratação de recursos humanos qualificados.
“Todas essas proposições partem do pressuposto de que o Brasil já conta com instrumentos legais para o apoio a essas iniciativas. O que precisamos é orientar melhor esses marcos legais nas direções de interesse e aplicar mais recursos nesses instrumentos”, afirmou Fiates.
Mais informações: www.agencia.fapesp.br/arquivos/estudo-sobre-parques-mais-completo.pdf
(Agência FAPESP)

São Paulo busca soluções para evitar colapso socioambiental

Redação do Akatu
A cidade de São Paulo foi palco de vários encontros envolvendo representantes do governo, organizações não-governamentais, empresas, profissionais de comunicação e sociedade civil para discutir e mostrar como a as relações sociais, econômicas e ambientais no Brasil estão impactando negativamente a sustentabilidade do planeta.
Como era de se esperar, o desmatamento e a exploração não sustentável da região amazônica dominou os debates. Afinal, São Paulo é o maior centro urbano do país e o maior consumidor, processador e distribuidor dos produtos extraídos da Amazônia como madeira, carne e soja.
Ao governo, coube a exposição de medidas a serem adotadas para a preservação e exploração sustentável da Amazônia. As medidas foram anunciadas pelo Ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, durante o evento “Amazônia: Dilemas e Oportunidades”, promovido pela Câmara Americana do Comércio (Amcham).
O Movimento Nossa São Paulo e o Fórum Amazônia Sustentável, organizaram o seminário “Conexões Sustentáveis: São Paulo - Amazônia”, iniciativa da qual o Instituto Akatu participa, para discutir o viés socioambiental das relações comerciais entre as duas regiões.
A jornada continuou com o “Encontro Latino Americano de Comunicação e Sustentabilidade” promovido pelo Instituto Envolverde.
Governo vai redefinir as “regras do jogo” para Amazônia
“O debate nacional sobre a Amazônia tem sido marcado por abstrações e vazio prático. Por isso, o maior desafio consiste em formular regras claras para a exploração sustentável da Amazônia”, afirmou o ministro Mangabeira Unger.
Para Mangabeira, as “supostas” disputas entre as forças “desenvolvimentistas” e “ambientalistas” são resultado do equívoco causado pela fragilidade e falta de transparência das leis ambientais em vigor. “A conciliação entre essas duas partes é possível e pode ser viabilizada por bases legais eficazes que atualmente não existem”, justificou.
Para mudar a realidade atual, o ministro apontou duas ações prioritárias do seu plano para Amazônia: a primeira é a regularização e mapeamento fundiário e a simplificação das leis em proveito dos pequenos e médios empreiteiros. “Com as regras do jogo definidas de forma clara e transparente, fica mais fácil identificar e punir os infratores”. A segunda ação consiste em fazer com que cada Estado detentor de território amazônico crie mecanismos próprios, porém, convergentes, de fiscalização e preservação da região com apoio e coordenação do governo federal.
“Esses critérios vão permitir a exploração da Amazônia de forma sustentável, garantindo que ela tenha mais valor em pé do que derrubada”, prometeu.
A papel da Sociedade Civil
“A sociedade civil organizada é fundamental para a eficácia das ações governamentais. Nunca acreditei em governos paternalistas. Sempre apostei em modelos em que a sociedade faz a diferença, se posicionando através de debates e reforçando decisões justas”, defendeu a ex-ministra de Meio Ambiente e senadora pelo estado do Acre, Marina Silva.
A senadora falou durante o seminário “Conexões Sustentáveis: São Paulo e Amazônia”. O objetivo do evento, segundo Beto Veríssimo, do Fórum Amazônia Sustentável, no qual o Instituto Akatu participa, “é fazer o caminho contrário, ou seja, mostrar ao consumidor de forma clara que alguns dos produtos que chegam ‘limpos’ em sua casa, podem ser resultado de um processo muito ’sujo”.
Vale lembrar que essa crítica deve nortear principalmente os moradores de São Paulo, pois a cidade é a maior e o mais importante centro consumidor de produtos extraídos Amazônia, entre eles a madeira. Só este ano, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a produção legal de madeira amazônica atingirá 35 milhões de metros cúbicos. Dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis (Ibama), apontam que desse volume, 23% vêm para o Estado de São Paulo, o que representa mais que a soma dos dois Estados que aparecem em segundo lugar (Paraná e Minas Gerais), com 11% cada.
Ao tratar da exploração ilegal, a realidade mostra que, paralelamente ao comércio “oficial”, 80 a 90% da madeira amazônica consumida no país é fruto do desmatamento predatório e ilegal, segundo estimativas do próprio MMA.
Práticas como essa colocam em perigo não só a sustentabilidade da maior e mais diversa floresta tropical do planeta, como também são responsáveis por 75% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Para piorar a situação, a região continua sendo vítima de uma desvantagem social e econômica histórica com a permanência de focos de trabalho escravo.
Ainda que a realidade seja assustadora, ela não constitui novidade, principalmente para os que trabalham com a temática ambiental. Por isso, “os debates sobre a Amazônia devem ganhar respaldo político com propostas que sejam traduzidas em ações concretas em favor da Amazônia e de São Paulo”, afirmou Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo, do qual o Instituto Akatu participa.
Durante o seminário, foi feita a divulgação de um relatório elaborado pelas ONG´s Papel Social Comunicação e Repórter Brasil. O documento detalha os impactos sociais e ambientais causados pelo avanço da agropecuária e do extrativismo sobre a floresta e cita exemplos de empresas que mantém ou mantiveram relações comerciais com proprietários e investidores rurais flagrados pelo poder público cometendo crimes ambientais ou valendo-se do trabalho escravo. Essa cadeia de responsabilidades atinge diretamente o maior centro consumidor do país. Clique aqui para ler o documento na íntegra.
Medidas concretas
O comprometimento das partes envolvidas e o avanço de medidas concretas em defesa da Amazônia marcaram a tônica das discussões. Durante o evento, foi assinado o termo de compromisso dos candidatos ao segundo turno das eleições municipais de São Paulo, que deverá levar o agora eleito Prefeito Gilberto Kassab a cumprir políticas públicas que ajudem a construir uma Amazônia sustentável. Os compromissos deverão estar previstos no plano de metas do novo prefeito a ser apresentado publicamente em até 90 dias após a posse, conforme prevê a Emenda 30 da Lei Orgânica do Município.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, participou da assinatura do compromisso e parabenizou a iniciativa. Minc afirmou que o governo também assinou acordos com setores da soja e da madeira, com mineradoras e com bancos para comprometer as cadeias produtivas e comerciais a trabalharem com práticas sustentáveis.
Outro ato importante foi a aprovação de três pactos empresariais relativos às cadeias produtivas da madeira, da pecuária e da soja, e que visam o estabelecimento de mecanismos de monitoramento pelos signatários para que se reduza muito significativamente a destruição da Amazônia. Qualquer empresa corre o risco de se envolver diretamente com o problema ao comprar de fornecedores que desmatam a região.
O Instituto Akatu, na qualidade de membro do Fórum Amazônia Sustentável foi uma das organizações parceiras do seminário e é também signatária dos três pactos. Para Helio Mattar, diretor presidente do Akatu, “os empresários devem encarar os pactos como mais uma oportunidade de mostrarem que estão efetivamente comprometidos com a busca de modelos de negócios que sejam sustentáveis”.
Em linhas gerais, o compromisso dos signatários é de financiar, distribuir e comercializar apenas produtos com certificação (ou que estejam em processo de regularização) e que não tenham conexão com fornecedores que fazem uso de trabalho escravo ou possuam terras embargadas pelo Ibama. Clique para saber mais detalhes sobre o pacto da madeira, da pecuária e da soja.
Para monitorar o cumprimento dos termos de compromisso foi criado um Comitê de Acompanhamento, do qual o Akatu faz parte. O grupo se reunu pela primeira vez no dia 5 de novembro para definir seu papel, escopo e atividades.
Na opinião de Marina Silva, “ações concretas como essa são fundamentais, pois elas criam um ‘constrangimento ético’,que felizmente ainda move a sociedade em direção ao bem comum.”
Ao todo, 33 instituições assinaram os pactos. O pacto da madeira tem 27 signatários, o da pecuária 14 e o da soja conta com 12 assinaturas.
A imprensa e a sustentabilidade
“Atualmente o grande desafio dos jornalistas é distinguir marketing ambiental da maquiagem verde”, afirmou André Trigueiro, jornalista e membro do Conselho Consultivo do Akatu, em sua participação no Encontro Latino Americano de Comunicação e Sustentabilidade, organizado pelo Instituto Envolverde.
Para Trigueiro, é legítimo que as empresas mostrem o que estão fazendo em ações socioambientais através do marketing. Mas hoje, com a dificuldade em rastrear as cadeias produtivas das empresas, “a atenção dos jornalistas deve ser redobrada para identificar e denunciar as que praticam ‘maquiagem verde’ - caracterizada pela incoerência entre o discurso e a realidade da empresa”, alertou.
Para Adalberto Marcondes, presidente do Instituto Envolverde, “os jornalistas precisam perceber que o viés da sustentabilidade pode transitar por todas as pautas, pois é abrangente e está presente em todas as relações sociais e econômicas”.
Eduardo Acquarone, editor da Rede Globo, parceiro mantenedor do Akatu, afirmou que há espaço na mídia para cobertura ambiental. “Mas precisamos de boas pautas”. Acquarone citou como exemplo o sucesso do site que monitora em tempo real o desmatamento na Amazônia. “Em um mês, houve mais de 30 milhões de acessos, ou seja, o público tem interesse no tema”, defendeu.
A senadora Marina Silva, que também participou do evento, propôs um desafio para os profissionais de comunicação: “Pautas focadas na sustentabilidade dependem de olhares apurados, atentos aos desvios, possibilitando a antecipação. Portanto, o olhar do jornalista deve estar focado onde a ‘bola’ vai estar e não onde ela está”.
(Instituto Akatu)

A cara do Brasil: um olhar da biogeografia e da geologia do país

A camada do pré-sal foi formada há 150 milhões de anos com o início da fragmentação do Gondwana, supercontinente que se quebrou para a formação de diversos continentes atuais como a América do Sul, África, Antártica e Austrália.
Em plena crise do petróleo, dentre outras tantas crises que vive o planeta, a Petrobras encontra a maior reserva do país, o que colocará o Brasil entre os dez maiores possuidores desse recurso natural no mundo. A camada de pré-sal tem cerca de 800 quilômetros e se estende de Florianópolis/SC até o sul da Bahia. Compreender como ela se formou e explorá-la hoje envolve especialistas das mais diferentes áreas, fazendo-nos refletir acerca da biogeografia e geodiversidade brasileira. A IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o entomologista Claudio Carvalho e o geólogo Cássio Roberto da Silva justamente para tratar de questões como a formação da camada de sal, sobre as condições ecológicas do país e sobre os estudos acerca dos fatores climáticos e sua interferência no nosso meio ambiente.
O professor Claudio, ao falar da relação entre ciência e fé, nos diz que, cientificamente, a Bíblia pode ser considerada o primeiro livro de biogeografia, “pois indica um centro de origem de todas as espécies e um modo de dispersão deste centro de origem para lugares onde as espécies não ocorriam”. Já o professor Cássio nos conta que “a retirada do petróleo em águas profundas exige uma complexa tecnologia, devido ao ambiente em geral inóspito ao ser humano. Sendo que, nesse processo até a chegada no continente, oferece riscos ao meio ambiente e alguns acidentes têm ocorrido. Entretanto, esse é o preço que pagamos para o nosso bem-estar (chuveiro quente, combustível para o automóvel, fogão etc.)”.
Claudio José Barros de Carvalho é graduado em Ciências Biológicas, pelas Faculdades de Humanidades Pedro II, no Rio de Janeiro. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizou mestrado e doutorado em Entomologia. É também pós-doutor pela The Natural History Museum, na Inglaterra. Atualmente, é professor na UFPR e presidente da Sociedade Brasileira de Entomologia, além de consultor da Sociedade Brasileira de Zoologia.
Cássio Roberto da Silva é graduado em Geologia e mestre, pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Atualmente, é doutorando em Geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É geólogo do Serviço Geológico do Brasil. Organizou o livro Geologia médica no Brasil (Rio de Janeiro: CPRM-Serviço Geológico do Brasil, 2006).
Entrevista com Claudio José Barros de Carvalho
IHU On-Line - De que forma o estudo da biogeografia brasileira, ao longo de todos esses anos, contribui nas pesquisas para a exploração do pré-sal e, principalmente, na questão do uso que será dado a ele?
Claudio José Barros de Carvalho - A biogeografia é a ciência que estuda a distribuição geográfica dos seres vivos no espaço através do tempo. Esta definição é acurada, mas esconde uma complexidade de métodos e procedimentos que procura entender onde e como os organismos vivem no local onde ocorrem. No Brasil, os estudos biogeográficos foram incrementados nos últimos 50-60 anos com o conhecimento mais preciso da distribuição dos organismos e como este padrão poderia ser analisado e entendido. Foram e estão também sendo investigados processos que podem ter originado esses padrões. A camada do pré-sal foi formada há 150 milhões de anos com o início da fragmentação do Gondwana [1], supercontinente que se quebrou para a formação de diversos continentes atuais como a América do Sul, África, Antártica e Austrália. A melhor utilização do uso desta camada deve ser estudada por pesquisadores de outras áreas do conhecimento, como a Geologia, por exemplo.
IHU On-Line - Em sua opinião, que condições ecológicas vive o Brasil hoje?
Claudio José Barros de Carvalho - Esta pergunta é difícil de responder e com certeza poderia ser desenvolvida em livros e tratados. Biogeograficamente falando, estamos perdendo um grande número de espécies a cada ano pela destruição de grandes áreas. Isto é um fato palpável, mas pouco entendido e dimensionado biologicamente, ou melhor, biogeograficamente. Estão sendo perdidas espécies mesmo antes de conhecê-las. Sem pensar nas espécies introduzidas pelo homem, a ocorrência de qualquer organismo em qualquer lugar não se dá por acaso, isto é, fatores históricos e também ecológicos indicam esta localização. A biogeografia ensina que o espaço não é um conceito absoluto, mas relativo. Isto é, apenas faz sentido o espaço (ou área) se utilizar também a componente forma (a variação de todos os atributos dos organismos) e o tempo (como ele afetou a distribuição desses organismos). Por isso, temos de usar a história para entender a distribuição dos organismos no presente.IHU On-Line - Quais as principais diferenças entre biogeografia e ecogeografia?
Claudio José Barros de Carvalho - A biogeografia pode ser dividida academicamente em dois grandes níveis, em termos de escala, padrão e processos envolvidos na formação desses padrões: o nível histórico estudado pela biogeografia histórica e o nível ecológico estudado pela biogeografia ecológica. Enquanto que no primeiro nível destaca-se o estudo do padrão de distribuição congruente de táxons distintos, o segundo destaca-se pelo padrão de distribuição individual dos organismos. Penso que qualquer ação integrativa de planejamento deve ser calçada nos conhecimentos destes dois níveis, tendo como objetivo a melhor utilização do ambiente.IHU On-Line - De que forma os fatores climáticos atuais interferem na biogeografia brasileira?
Claudio José Barros de Carvalho - Já existem algoritmos genéticos para estimar a expansão e redução de áreas de distribuição de organismos. Sem entrar em detalhes se essas variações climáticas são decorrentes da ação humana ou natural, não podemos deixar de entender que as variações climáticas na Terra ocorrem há milhões e milhões de anos, desde que o mundo é mundo. A biogeografia histórica nos ensina a entender isto. Saber como estas variações climáticas ocorreram e como afetaram os organismos no passado nos dará subsídios para saber como afetará os organismos atualmente.
IHU On-Line - Qual a importância dos estudos que Alfred Russel Wallace [2] fez na Amazônia para a biogeografia brasileira?
Claudio José Barros de Carvalho - A viagem de Alfred Wallace, junto com seu amigo Henry Bates [3], à Amazônia, revolucionou a biogeografia, não apenas brasileira, mas também a mundial. Pela primeira vez, foi constatada a importância de conhecer a exata localização das espécies. Com ela, foi possível conceituar as áreas de endemismos da Amazônia, hipóteses que estão sendo refinadas deste então, mas que começaram com as viagens de Wallace pelos Rios Amazonas e Negro. A partir desses estudos, foi indicado como os grandes rios podem ser barreiras efetivas na distribuição das espécies, dando lugar mesmo ao entendimento de como toda a biota amazônica evoluiu. Esta foi a primeira explicação biogeográfica dos padrões de distribuições dos organismos amazônicos.
IHU On-Line - Como o senhor analisa a relação das concepções religiosas como a biogeografia?
Claudio José Barros de Carvalho - Ciência e religião são áreas que normalmente atuam em lados diferentes. Uma é a razão (aceitação geral, métodos, ciência) a outra é a fé (aceitação pessoal, crença, religião). Cientificamente falando, a Bíblia é o primeiro livro de biogeografia, pois indica um centro de origem de todas as espécies e um modo de dispersão deste centro de origem para lugares onde as espécies não ocorriam. Esta visão foi repetida também na Arca de Noé e mesmo na concepção da Torre de Babel. Biogeograficamente, esta visão ficou conhecida como uma linha de pensamento chamada Biogeografia dispersionista onde a explicação de qualquer padrão de distribuição passava sempre por um local de origem e dispersão dos membros para outras áreas. Esta visão mudou apenas há 50 anos com a concepção da vicariância [4] onde a fragmentação da área podia também alterar/modificar os organismos que ocorriam nesta área. É sempre bom lembrar que, biogeograficamente, a área é um conceito relativo onde apenas faz sentido com os componentes de forma (a variação dos atributos dos organismos) e de tempo (como ele afetou a distribuição desses organismos).
Entrevista com Cássio Roberto da Silva
IHU On-Line - De que forma o estudo da geodiversidade brasileira, ao longo de todos esses anos, contribui nas pesquisas para a exploração do pré-sal e, principalmente, na questão do uso que será dado a ele?
Cássio Roberto da Silva - A geodiversidade compreende o estudo da natureza abiótica (meio físico), a qual é constituída por uma variedade de ambientes, composição, fenômenos e processos geológicos que dão origem às paisagens, rochas, minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos superficiais, que propiciam o desenvolvimento da vida na Terra, tendo como valores intrínsecos a cultura, o estético, o econômico, o científico, o educativo e o turístico. Nesse estudo, tem-se a prospecção e a exploração do pré-sal e, neste caso, supõe-se que o seu uso seja efetivado em bases sustentáveis.
IHU On-Line - Em sua opinião, quais são as condições ecológicas do Brasil hoje?
Cássio Roberto da Silva - Certamente, as condições ecológicas atuais são bem melhores do que há 15 anos, antes da Rio 92 [5]. Ou seja, os cuidados com o meio ambiente têm avançado significativamente. Todas as empresas de grande e médio porte da mineração possuem o seu setor ambiental. Como exemplo, verifica-se que cerca de 80% das empresas de mineração de grande porte e 37% das de médio porte possuem a ISO 14000 [6], relativa à certificação ambiental de seus processos de extração de minérios. Todas as mineradoras de grande porte têm implantado o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) e acerca de 75% as de médio porte.
IHU On-Line - O que acontece com o meio ambiente quando o petróleo é retirado? Qual é o ambiente propício para a formação do petróleo?
Cássio Roberto da Silva - A retirada do petróleo em águas profundas exige uma complexa tecnologia, devido ao ambiente em geral inóspito ao ser humano. Sendo que, nesse processo, até a chegada no continente, oferece riscos ao meio ambiente e alguns acidentes têm ocorrido. Entretanto, esse é o preço que pagamos para o nosso bem-estar (chuveiro quente, combustível para o automóvel, fogão etc.). O petróleo é formado há milhões de anos, precisando para tanto a rocha geradora (quantidade grande de material carbonoso e pressão e temperatura adequadas para transformar esse material em óleo e/ou gás) e a rocha reservatório, onde o óleo se acumula.
IHU On-Line - Para o senhor, o que significa, em relação à geologia brasileira, o descobrimento dessa quantidade de petróleo na costa brasileira?
Cássio Roberto da Silva - A geologia brasileira é riquíssima. Temos rochas com idade 3,6 milhões de anos até os dias atuais e registros de seres vivos desde 1,2 bilhões de anos. Também temos quantidades expressivas de metais metálicos, não-metálicos, industriais, radiativos, água mineral, rochas ornamentais, gemas, minerais preciosos e materiais para a construção civil. E mais: possuímos uma imensa quantidade de águas nas bacias hidrográficas e de águas subterrâneas (como o aqüífero Guarani). As paisagens são originadas por processos geológicos. Também o nosso país é privilegiado nesse sentido, as quais atualmente vêm sendo muito difundidas através do geoturismo.
Sem sombra de dúvida, essa quantidade de petróleo é uma dádiva para o povo brasileiro. Se considerarmos que este bem mineral é a nossa principal matriz energética, poderemos dar um grande passo para nos tornarmos uma rica nação, a qual espero que tenha o mínimo de diferenças sociais. Aqui devemos registrar a competência e insistência do quadro de geólogos da Petrobras, que levaram a empresa a ser reconhecida mundialmente e agora também contribuindo para a melhoria do nosso país.
IHU On-Line - De que forma os fatores climáticos atuais interferiram na geodiversidade brasileira?
Cássio Roberto da Silva - Apesar das críticas ao modelo do IPCC por não considerar os dados das ciências da Terra e estabelecer cenários que suscitam algumas dúvidas, a intervenção do homem no meio ambiente é notória e, assim, no Brasil, deve-se já ir pensando na adaptação com vistas a se adequar aos impactos causados pela mudança global do clima, por meio da formulação e implementação de um conjunto de estratégias setoriais. Essa adequação se baseia na identificação da vulnerabilidade dos biomas brasileiros ao aumento da concentração de gases de efeito estufa e dos impactos decorrentes na sociedade brasileira, particularmente nas áreas de zonas costeiras, saúde, biodiversidade, agropecuária, florestas, recursos hídricos e energia. O aumento populacional no planeta não condiz com o aumento na demanda por recursos hídricos e energia, sendo que essa tem aumentado nos últimos 70 anos, três vezes mais do que a população. Há necessidade de mudança de hábitos de consumo, ou seja, mudança de paradigmas. A gestão dos recursos hídricos, uso racional de energia e o planejamento do desenvolvimento, principalmente o urbano, são estratégias para essa mudança.
Notas:[1] O supercontinente do sul Gondwana incluía a maior parte das zonas de terra firme que hoje constituem os continentes do Hemisfério Sul, incluindo a Antártida, América do Sul, África, Madagáscar, Seychelles, Índia, Austrália, Nova Guiné, Nova Zelândia, e Nova Caledónia. Foi formado durante o período Jurássico Superior há cerca de 200 milhões de anos atrás, pela separação do Pangea. Os outros continentes, nessa altura a América do Norte e Euroásia, ainda estavam ligados, formando o super continente de Laurásia.
[2] Alfred Russel Wallace foi um naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo britânico. 1858, durante uma jornada de pesquisa nas ilhas Molucas, Indonésia, Wallace escreveu um ensaio no qual praticamente definia as bases da teoria da evolução e enviou-o a Charles Darwin, com quem mantinha correspondência. Wallace foi o primeiro a propor uma “geografia” das espécies animais e, como tal, é considerado um dos precursores da ecologia e da biogeografia e, por vezes, chamado de “Pai da Biogeografia”. Em 1848, Wallace e Henry Bates partiram para o Brasil com a intenção de coletar insetos e outros espécimes animais na floresta amazônica e vendê-los à colecionadores na Inglaterra. Também esperavam juntar evidências da transmutação das espécies.
[3] Henry Walter Bates foi um entomólogo e naturalista inglês. Ficou famoso por sua viagem à Amazônia, junto com Alfred Russel Wallace, com o objetivo de recolher material zoológico e botânico para o Museu de História Natural de Londres. Permaneceu no Brasil durante onze anos, enviando cerca de 14.712 espécies (8000 delas novas), a maior parte insetos para a Inglaterra.
[4] Vicariância é o mecanismo evolutivo no qual ocorre uma fragmentação de uma área biótica, separando populações de determinadas espécies. A falta de fluxo génico entre as duas sub-populações agora formadas fará com que elas fiquem cada vez mais diferentes e, mantendo-se a barreira por tempo suficiente, levará à especiação. Estas barreiras podem ser geográficas, como a formação de montanhas devido ao movimento de placas tectônicas, uma falha causada pelo distanciamento de duas placas, o surgimento de um rio etc. As barreiras também podem ser ecológicas, como quando a área entre duas populações torna-se imprópria para a reprodução da espécie. Em ambientes aquáticos, elevações rochosas nos fundos de oceanos podem separar populações de uma mesma espécie que se manterão isoladas, sofrendo todo o processo de diferenciação génica separadamente.
[5] A Rio-92 é o nome pelo qual é mais conhecida a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro. O seu objetivo principal era buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Essa conferência consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos países desenvolvidos. Reconheceu-se, ao mesmo tempo, a necessidade de os países em desenvolvimento receberem apoio financeiro e tecnológico para avançarem na direção do desenvolvimento sustentável.
[6] ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization (ISO) e que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.

Cidades latino-americanas, muito longe da sustentabilidade

Daniela Estrada, da IPS
Os países da América Latina estão muito longe de ter arquitetura e construção sustentáveis por falta de normas, certificações, incentivos financeiros e formação profissional e técnica, afirmam especialistas reunidos na capital chilena. Para avançar nessa área é preciso “decisão política”, disse à IPS a argentina Silvia de Schiller, convidada a expor no III Seminário Ecoarq, inaugurado terça-feira (4) no Museu de Arte Contemporânea, por ocasião da XVI Bienal de Arquitetura do Chile.
No primeiro dos quatro dias do encontro, organizado pelo Colégio de Arquitetos do Chile, os especialistas enfatizaram que o projeto e a construção sustentáveis têm três dimensões - ambiental, econômica e social - e que estas não se referem apenas aos objetos erigidos, devendo seguir de mãos dadas com um planejamento urbano. Segundo Schiller, entre 30% e 40% da energia consumida em um ano nos países da região vão para a construção e o acondicionamento de casas e edifícios, na forma de iluminação, calefação e refrigeração.
A seu ver, a América Latina pode melhorar seu crescimento econômico e baixar seus níveis de pobreza, além de contribuir para a luta contra o aquecimento global, se este setor reduzir seu consumo de energia e a distribuir mais equitativamente. Com bons projetos arquitetônicos, em alguns casos pode-se prescindir de sistemas de ventilação e calefação, afirma Schiller, diretora do Centro de Pesquisa Habitat e Energia da Faculdade de Arquitetura, Desenho e Urbanismo da estatal Universidade de Buenos Aires.
Também é imprescindível melhorar o isolamento térmico das casas sociais, que por ser deficiente tem impacto negativo na saúde e na produtividade das pessoas, sobretudo das mais pobres, segundo Schiller. Para esta arquiteta argentina, o fato de países em desenvolvimento, entre eles os latino-americanos, não estarem obrigados pelo Protocolo de Kyoto a reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO²), joga contra o avanço da arquitetura e da construção sustentável na região.
O Protocolo de Kyoto sobre Mudança Climática foi adotado em 1997, mas entrou em vigor apenas em 2005 e expira em 2012. Este instrumento internacional estabeleceu metas de redução de gases que levam ao aquecimento do planeta para os países ricos. Há experiências de arquitetura e construção sustentáveis na América Latina? “O Chile está recém-despertando em razão da crise energética (que atravessa). Nos outros países da América Latina, onde me parece haver algo mais, é no Brasil, México e talvez na Argentina. No resto da região diria que não há quase nada”, afirmou à IPS o arquiteto chileno Norman Goijberg, também expositor da Ecoarq.
Goijberg é um dos fundadores da Iniciativa Internacional para um Ambiente Construído Sustentável (Iisbe, sigla em inglês). “Nossas economias em crescimento têm outras prioridades, que muitas vezes são dar teto às pessoas, antes de chegar à eficiência energética. Também se diz que estas são soluções apenas para os países ricos”, disse. “Minha opinião é exatamente a inversa. Precisamente por não sermos países ricos não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar dinheiro com energia”, ressaltou Goijberg.
Os países da região devem gerar normas de eficiência energética, promover a certificação das edificações e dos materiais de construção e dar subsídios para massificar a arquitetura sustentável, afirmam os especialistas. Também se deve melhorar a formação dos arquitetos, capacitar os pedreiros e incentivar uma mudança de mentalidade entre os usuários para que optem por construções amigáveis com o meio ambiente, acrescentam. Além disso, os especialistas criticam o abuso de alguns arquitetos nos edifícios envidraçados, onde o calor passa diretamente para o interior, o que obriga a usar grande quantidade de recursos para esfriá-lo.
Também questionam a aposta de muitos arquitetos em projetos extravagantes e “espetaculares”, que privilegiam o impacto visual sobre a eficiência energética e a qualidade de vida das pessoas que residirão ou irão trabalhar nas edificações projetadas. Conseguir a eficiência energética na construção “é muito fácil”, disse o arquiteto chileno Javier del Rio, assessor energético e diretor de mestrado da privada Universidade Andrés Bello. “É necessário misturar a tradição com os inventos novos”, disse à IPS.
Mais do que inovar às cegas, os arquitetos latino-americanos devem estudar as características das moradias construídas por seus antepassados, muitos deles neófitos em matéria de projeto, mas que conheciam muito bem as necessidades térmicas de suas famílias, explicou del Rio. Atualmente, há diversas estratégias em curso para instalar definitivamente o conceito de arquitetura e construção sustentáveis na região. Este ano, Schiller criou um programa de trabalho sobre arquitetura para um futuro sustentável dentro da União Internacional de Arquitetos (UIA), que pretende criar “uma rede virtual de arquitetos, onde se possa mostrar as diferentes iniciativas em desenvolvimento”. Nesta rede terão lugar, por exemplo, as teses universitárias. “Chamo por teses produtivas, úteis, que possam ser aplicadas”, disse Schiller. O programa cobre desde o Alasca, nos Estados Unidos, até a Terra do Fogo, sul da Argentina e do Chile.
Da mesma forma, em abril deste ano criou na França a SB Alliance, entidade que busca homologar os numerosos sistemas de certificação de construções existentes até agora no mundo. A SB Alliance conta com apoio da Iisbe, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), entre outras entidades. Goijberg, que também é fundador do Iisbe e preside o Conselho de Construção Sustentável, estima que no próximo ano se poderá acordar um “núcleo comum” de convergência dos diversos sistemas de certificação.
(Envolverde/IPS)