segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Europa: A crise mundial e a ausência da esquerda

Por Mario Soares*

Lisboa, outubro/2008 – A crise econômica que está estremecendo o mundo, iniciada nos Estados Unidos no segundo mandato de George W. Bush, repercute na Europa, na Rússia, até na China e em outros rincões do planeta. Diante desta catástrofe os mesmos financistas que até há poucos meses reclamavam menos Estado e mais privatizações agora recorrem descaradamente ao Estado para pedir que lhes transfira o dinheiro dos contribuintes. Privatiza-se os lucros e socializa-se as perdas sem importar os danos causados ao acionistas nem as conseqüências sobre o nível de vida das pessoas menos favorecidas.O certo é que o sistema neoliberal está avariado. Se faz necessário repensar o capitalismo, fazê-lo passar desta fase especulativa, de uma “economia de cassino” para um tipo de capitalismo ético, com sensibilidade social e respeito ao meio ambiente. Uma mudança semelhante não só é possível como é indispensável. Como escreveu o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, “é preciso que os dirigentes políticos do Ocidente tenham a coragem de dar um giro à esquerda”. Nos Estados Unidos, a esquerda sempre contou pouco, com as exceções do New Deal, do presidente Franklin D. Roosevelt e da Nova Fronteira, do presidente John F. Kennedy, que durou pouco tempo.Mas o Partido Democrático sempre manteve uma diferenciação com o Partido Republicano, ultraconservador, apesar de um de seus expoentes o presidente Ike Eisenhower, ter tido a valentia de denunciar o “complexo industrial-militar”, que renasceu com vigor durante o governo Bush. Barack Obama, apesar de não ser um político de esquerda, marca uma acentuada diferença com o ultraconservadorismo político-religioso do candidato presidencial republicano John McCain e de sua companheira de chapa, Sarah Palin.Por sua vez, a esquerda democrática do Velho Continente, que nos anos 70 e 80 ocupava o primeiro plano na Europa com líderes da qualidade de Willy Brandt, François Miterrand, Helmuth Schmidt, James Callaghan, Olof Palme, Bruno Kreisky, Felipe González, Pietro Nenni e Bettino Craxi, depois da queda do comunismo começou a perder terreno e se deixar “colonizar” pelo pensamento neo-liberal de Tony Blair e Gerhard Schroeder no contexto da chamada Terceira via (hoje desacreditada). Diante deste retrocesso surge a dúvida sobre as causas que levaram à situação de debilidade em que se encontra hoje a esquerda na Europa. Quais caminhos devem ser seguidos para atualizar o pensamento da esquerda democrática para que pos0sa enfrentar a crise múltipla com a qual nos deparamos?Se considerar-se a situação atual da esquerda nos grandes países da Europa – o Partido Social-Democrata da Alemanha, o New Labour, da Grã-Bretanha, o Partido Socialista da França e o novo Partido Democrático da Itália (para citar apenas os maiores) – constatamos o declínio que é comum aos partidos que se inspiram no socialismo democrático e estão reunidos na Internacional Socialista, cuja voz quase não se deixa ouvir. É verdade que também há outra esquerda, minoritária: o que resta dos partidos comunistas e os “altermundistas” ou não-global, que animam movimentos fundamentalmente de protesto e não encontram um caminho para seguir rumo ao poder.Por outro lado, não se deve esquecer o papel extremamente importante das federações e confederações sindicais que são sem dúvida algumas fortes em seus contextos, nem as associações de defesa dos direitos humanos e de conservação do meio ambiente e outras, influentes no plano social, mas com pouco peso na disputa pelo poder em termos eleitorais. Nesse contexto a esquerda social-democrata tem de refletir sobre duas dimensões: como enfrentar a crise em curso e com conceber outro modelo econômico, social e político voltado para um aprofundamento democrático e maior participação cívica dos cidadãos.Trata-se de reivindicar os valores éticos que sempre foram bandeiras da esquerda. Ampliar a participação cívica para se contrapor à debilidade do Estado, reforçar a justiça social, opor-se à mercantilização da sociedade, à corrupção e ao tráfico de influências. A militância deve retomar a luta a favor da paz e da resolução pacífica dos conflitos, da inclusão social, contra as desigualdades e a degradação ambiental. Além disso, os homens e as mulheres de esquerda que atuam em política partidária ou no governo têm a obrigação da transparência e de não incorrer em conflitos de interesses.Precisamente, tem sido a atividade de grupos de pressão econômicos, a imoralidade dos dirigentes de bancos e empresas, e o tráfico de influência por parte de dirigentes políticos, em uma palavra, a promiscuidade entre a política e os negócios, o que desacreditou a política e contribuiu para desencadear a crise do sistema. Não nos iludamos: o sistema está corrompido e é preciso mudá-lo. Esta é a grande tarefa da esquerda na Europa. (IPS/Envolverde)* Mario Soares, ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.
(Envolverde/IPS)

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