sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Será que o pilar ambiental foi sobrevalorizado?

Michael Hopkins*, para a revista Im))pactus

Al Gore efectuou um óptimo trabalho ao conseguir trazer o debate ambiental para a ordem do dia. Mas se, ao menos, tivesse feito o mesmo esforço em relação a outra questão fundamental - a área social - quando teve oportunidade, o mundo seria actualmente um local bem melhor. Estou-me a referir às eleições presidenciais de 2000, onde acabou por desistir cedo demais, mesmo após ter obtido a maioria dos votos e sabendo que a contagem dos votos na Flórida tinha sido manipulada. Se tivesse continuado a lutar, recusando aceitar a derrota até à recontagem dos votos, então o maior desastre dos últimos sete anos - a guerra do Iraque, com um custo avaliado em 1.5 mil milhões de dólares - não teria acontecido. O 11 de Setembro teria ocorrido, mas estaríamos numa posição moral bem mais confortável, em relação ao terrorismo, do que aquela em que nos encontramos neste momento devido à presença desastrosa de George W. Bush na Casa Branca. É a isto que me refiro quando relembro que as questões de cariz social não devem ser completamente dominadas pelo debate ambiental.

Um e-mail que recebi recentemente estava imbuído da mesma linha de raciocínio. No grupo de discussão de RSE, CSR Chicks, a Ulrika escreveu “Olá membros do grupo de discussão, será que algum de vocês me saberá aconselhar relativamente a um seminário ou conferência de boa qualidade sobre Investimento Socialmente Responsável (ISR)? O ISR parece estar muito centrado em “Investimentos Ecológicos” e em questões ambientais. O que eu procuro é uma conferência acerca de ISR, mas centrada em direitos humanos, direitos laborais, corrupção e também sobre ambiente.”

Num recente inquérito mundial às empresas sobre questões politicossociais, da autoria da McKinsey[i], mais de metade dos participantes escolheu o ambiente, incluindo as alterações climáticas, como um dos três temas que mais irá atrair a atenção dos políticos e do público nos próximos cinco anos, em comparação com 31% no anterior inquérito.

Parece claro que o aquecimento global é um dos principais temas do momento. Curiosamente, a comprovação de que as emissões de carbono contribuem para o aquecimento global ainda decorre. Por exemplo[ii], John Christy, Professor de Ciências da Atmosfera na Universidade de Alabama, é de opinião que a ciência não é totalmente fidedigna, até porque fazer previsões é uma “ciência” difícil e salienta que “quantificar o aquecimento que terá ocorrido devido ao aumento da emissão de gases de efeito de estufa e afirmar aquilo que poderemos esperar no futuro, são respostas ainda repletas de enorme incerteza, na minha opinião”.

A minha opinião, tal como a de muitos outros, é a de que se trata de uma ameaça demasiado importante e, por isso, se deve destinar 1% do PIB, anualmente, para tornar o nosso planeta num local mais ecológico, tal como foi sugerido pelo Relatório Stern. Mas sejamos racionais acerca deste tema e actuemos onde possam ocorrer os maiores impactos.

A preocupação com o ambiente não é algo de novo. Os avisos de catástrofe mundial vieram da equipa liderada por Donella Meadows no livro “Os Limites do Crescimento” publicado em 1971. Mas os seus autores tiveram o cuidado de referir que existiam outras catástrofes e a falecida D. Meadows, com quem tive o privilégio de trabalhar, era nessa altura uma entusiasta defensora da redução da pobreza na Índia.

As questões ambientais são algo sobre o qual é fácil entusiasmarmo-nos. Durante a Guerra Fria, nos anos 70, a única instituição internacional criada para estabelecer uma ponte entre o Ocidente e o Oriente foi o Instituto Internacional para a Análise de Sistemas Aplicados (IIASA)[iii]. Ficou sedeada nos arredores de Viena, com o objectivo de aplicar a técnica de análise de sistemas aos problemas ambientais transfronteiriços - um sector considerado, na época, como não político! Actualmente, como é óbvio, esta instituição trabalha na criação de modelos de aquecimento global e 17 cientistas do IIASA foram os autores e revisores do Quarto Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre as Alterações Climáticas (PIAC) concluído recentemente.

Como os leitores saberão, defendi recentemente num artigo mensal[iv] que devemos escolher cuidadosamente as nossas catástrofes mundiais! Escrevi o seguinte: “… na tentativa de solucionar a potencial catástrofe do Aquecimento Global, estar-se-á a desviar a atenção da catástrofe da pobreza e do subdesenvolvimento?”

Pode a RSE ser o motor?

Acredito que a RSE é o motor que poderá estabelecer a ligação entre todos estes conceitos. A minha definição de RSE é actualmente a seguinte: “tratar os principais stakeholders das organizações de uma forma responsável”. Não a vou aqui defender dado que lhe dediquei um longo capítulo no meu livro “CSR and International Development - Is Business the Solution” (Earthscan, Londres, 2007)[v].

Assim, a RSE abrange a maioria dos stakeholders e as principais áreas de âmbito social, económico e ambiental. Em parte alguma, até à data, é possível encontrar uma avaliação tão abrangente sobre quais devem ser as prioridades. Para as empresas é muitas vezes evidente quem são os seus principais stakeholders e quais devem ser as suas prioridades de RSE. No entanto, as prioridades perdem clareza quando as empresas tentam ir ao encontro das preocupações da comunidade mais vasta na qual se inserem e desejam saber qual a forma correcta de cuidar dos seus colaboradores que muitas vezes se encontram em locais remotos e inóspitos.

De facto, as grandes empresas, tal como já referi inúmeras vezes nos nossos artigos mensais, têm responsabilidades que vão muito para além das suas habituais dietas. Podem também, em alguns casos (consultar o artigo mensal, na MHCI, sobre RSE e o Complexo Militar Industrial), afectar de forma negativa questões fundamentais. Logo, a minha principal tese é a de que as grandes empresas não deviam ir ao extremo do entusiasmo em relação às questões ambientais sem também terem em consideração as principais questões sociais e, como é óbvio, as suas próprias questões económicas. Geralmente, não se pretende que as empresas deixem de ter lucro pois, como é evidente, acabariam por definhar e morrer, o que não tem qualquer utilidade para os apoiantes da RSE. Que questões sociais são estas? Quais são as implicações entre estar centrado nas questões ambientais comparativamente às questões fundamentais de cariz social? Qual a relação entre a degradação ambiental e a precariedade social e a pobreza?

Apelo a todos aqueles que se preocupam com a futura catástrofe provocada pelas Alterações Climáticas, para que incluam não só medidas de cariz Ambiental mas também de Desenvolvimento Socio-Económico, dado que ambas as áreas estão intimamente interligadas e caso não sejam tomadas medidas haverá consequências gravosas para todos nós.


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Notas:

[i] Avaliar o impacto das questões de cariz social: A McKinsey Global Survey, Novembro, 2007

[ii] Citado pela BBC a 13 de Novembro de 2007.

[iii] ] http://www.iiasa.ac.at/docs/history.html?sb=3

[iv] MHCi Monthly feature consulte www.mhcinternational.com

[v] Michael Hopkins: CSR and International Development - Is Business the Solution? (Earthscan, Londres, Dezembro 2006, cuja versão revista será publicada pela Earthscan em Outubro de 2008).

Michael Hopkins é Professor de Responsabilidade Social Empresarial na Middlesex University Business School e Director Executivo da consultora de RSE e grupo de reflexão MHC International Ltd.. Entre os seus livros já publicados encontram-se “The Planetary Bargain: Corporate Social Responsibility Matters” (Earthscan, 2003) e “Corporate Social Responsibility and International Development: Is Business the Solution?” (Earthscan, 2006).

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